Enquanto milhões de brasileiros assistiam ao Haiti como adversário, em Curitiba uma comunidade inteira se preparava para viver um dos jogos mais simbólicos de sua história.

Quem cruzou os portões de ferro do campo do Operário Pilarzinho na fria noite da última sexta-feira (19) encontrou um pedaço de Porto Príncipe em um canto da capital paranaense.  

Em um grande telão instalado na estrutura do clube da Suburbana, Brasil e Haiti se preparavam para um histórico encontro de Copa do Mundo. O jogo terminaria 3 a 0 para a seleção brasileira. Mero detalhe. Naquele espaço, o clima era de irmandade e confraternização.

Antes mesmo da bola rolar, o primeiro gol da noite foi marcado em dois panelões de ferro.

O visitante era imediatamente absorvido pelo cheiro de uma aromática sopa fumegante à base de abóbora, servida gratuitamente em pequenas cumbucas: a histórica Soup Jomou, símbolo da independência haitiana da França, proclamada em 1º de janeiro de 1804.

O prato é, para o povo haitiano, uma lembrança de resistência, conquista e identidade. “Escolhemos fazer a sopa hoje não apenas para mostrar a nossa felicidade”, explica Laurette Bernardi Louis, 45 anos, presidente da Associação para a Solidariedade dos Haitianos no Brasil (ASHBRA).

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Sopa haitiana formou filas no Pilarzinho. Foto: Julio Filho/UmDois

“Quando a França colonizou o Haiti, tínhamos dificuldades até para comer. Com a independência, preparamos esta sopa para a vitória. Ela significa muita coisa para nós”, conta.

“A base dela é de abóbora, carne e legumes. Mas os demais ingredientes são segredo”, brinca. “Hoje é um dia de alegria para nós”, prossegue Laurette, que desembarcou em Curitiba em 8 de março de 2010 para ficar.

A história dela se mistura à de milhares de haitianos que escolheram o Paraná como nova casa. A comunidade haitiana representa o segundo maior movimento migratório contemporâneo do estado, atrás apenas dos venezuelanos.

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Segundo dados do Observatório Regional de Governança Migratória do Paraná (ORGMIGRA), cerca de 35 mil haitianos vivem no estado em 2026 — mais de 1.500 deles já foram naturalizados brasileiros. A ligação entre os dois países, segundo Laurette, nasceu muito antes desta noite de Copa do Mundo no Pilarzinho.


“O Haiti conheceu o Brasil por causa do futebol. É um amor dos haitianos muito profundo, não só pelo futebol, mas pelo povo brasileiro. E é um amor que nasceu faz tempo. Eu nem havia nascido ainda, e este amor já existia”, explica.


As bandeiras e camisas dos dois países se misturavam entre mesas e cadeiras de plástico. Crianças brasileiras e haitianas corriam atrás de uma bola no campo de bairro, em sua própria Copa particular, alheias ao telão que transmitia o jogo.  

Quanto mais se aproximava o apito inicial, mais o ambiente mudava. A expectativa crescia e a emoção tomava conta do espaço. Havia até olhares de incredulidade.

“É um dia histórico porque Haiti e Brasil são como um só país. Hoje estamos jogando contra e é sensacional. Hoje torcemos para o Haiti, mas em qualquer outro jogo, somos Brasil”, conta o técnico em informática, Emmanuel Saint-Holin, 37 anos. Ele deixou Porto Príncipe cedo e passou por Turquia, Egito e Israel antes de desembarcar em Curitiba há três meses.

“Eu sonho em um dia em conseguir o passaporte brasileiro”, diz.


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Emmanuel está há apenas três meses no Brasil. Foto: Julio Filho/UmDois

“Onde está o Brasil, está o Haiti. Desde criança somos assim. Sempre foi meu objetivo. E agora me sinto feliz. Me sinto em casa, em família. Mas hoje temos um coração dividido”, reforça.

O jogo nem havia ainda começado, mas o ambiente já mudava completamente. O som das conversas dividia espaço com o silêncio atento de quem espera os hinos, o apito inicial, o primeiro toque na bola.

Quando o hino do Haiti tocou, a atmosfera ficou elétrica. Com a bola em jogo, a tensão crescia a cada chegada da seleção brasileira. Os corpos se inclinavam nas cadeiras, como se pudessem interferir na defesa, à distância.

O empate mantido no placar alimentava as esperanças. Cada ataque do Haiti parecia anunciar um tremor. Em cada lance perigoso, o Pilarzinho prendia a respiração. Os gols da seleção brasileira foram mudando o cenário, é verdade. Mas a noite não acabou com o apito final.

Fotos: Luís Pedruco.

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