Descobri outro dia que as inscrições para quem pretende ser voluntário nos Jogos Pan-Americanos de Santiago, em outubro e novembro do ano que vem, já estão abertas. Infelizmente não achei informação sobre prazos – não sei nem há quanto tempo o comitê organizador abriu as inscrições, e nem quando pretende encerrá-las. Trabalhar como voluntário em uma competição multidesportiva como os Jogos Olímpicos ou o Pan é o tipo de experiência que eu desejo para todo fã de esporte olímpico. Tentei pela primeira vez em Sydney-2000, numa época em que os formulários ainda eram de papel e vinham pelo correio; não fui selecionado. Desisti de tentar Atenas-2004 porque havia acabado de mudar de emprego e não teria como viajar, mas resolvi que Turim-2006 não me escaparia, e de fato consegui, entrando na equipe de operações de imprensa para as competições de esqui alpino. Dez anos depois, no Rio, repeti a dose, agora dentro da Vila Olímpica, como assistente de comitê olímpico (no caso, a delegação que me atribuíram foi a do Camboja). Se essa pequena descrição animou o leitor a tentar ser um dos 15 mil voluntários que serão escolhidos para trabalhar no Chile, deixo nesta coluna algumas informações práticas e opiniões sobre a experiência do voluntariado.

Talvez a maior dúvida de quem esteja pensando em se inscrever pela primeira vez é o que o voluntário precisa bancar. Certamente, a viagem até o local do evento. Quase todas as vezes, a hospedagem também fica por conta do voluntário – apenas em casos bem raros, dependendo da função exercida ou do local onde a pessoa trabalha, a organização fornece o alojamento. Então, prepare-se porque não necessariamente será uma empreitada barata. A sorte é que, antes do evento, costumam-se formar nas mídias sociais várias redes de voluntários que acabam se ajudando. Em 2006, ainda antes do estouro das mídias sociais, um fórum extraoficial me ajudou a conseguir hospedagem bem mais em conta do que vinha sendo oferecido até então. No Rio, graças a um grupo de WhatsApp, vários voluntários estrangeiros puderam ficar na casa de um outro voluntário, carioca.

Por mais gratificante que seja trabalhar como voluntário, saiba que voluntariado não é um atalho para ver Jogos Olímpicos ou Pan sem ter ingresso

E o que se ganha em troca? De “material”, digamos, o uniforme, alimentação nos dias de trabalho, e acesso ao transporte público, que pode ser mais ou menos regulado (em Turim, só com a credencial eu podia usar livremente ônibus e trens; no Rio, tínhamos um cartão-transporte que dava direito a um número limitado de viagens por dia). De “imaterial”, além dos clichês da satisfação de participar de um evento desses e dos novos amigos feitos (é clichê, mas nem por isso deixa de ser verdade; os grupos de amigos de 2006 e 2016 continuam ativos, e sigo em contato com membros da delegação cambojana no Rio), experiência que pode muito bem servir para uma futura carreira profissional, dependendo da área em que se trabalha.

E, falando em experiência, a boa notícia é que muitas posições não exigem experiência profissional prévia nem domínio extenso de línguas. Com exceção de trabalhos especializados como na área médica ou no campo de jogo (em que é preciso ter familiaridade com o esporte que está sendo disputado), você pode muito bem ser alocado em quase qualquer função. O fato de eu ser jornalista levou os selecionadores de Turim a me colocar na equipe de operações de imprensa, mas quando cheguei lá vi que eu era o único voluntário do time a ser profissional de mídia; todos os outros tinham profissões diversas. A mesma coisa serve para idiomas: inglês é essencial, mas o idioma local em países de fala não inglesa, embora ajude muito, não é condição sine qua non. Eu falo italiano, mas no meu time de Turim nem todos falavam – o que havia era vários falantes de alemão, já que no esqui alpino a Áustria é uma potência e havia vários jornalistas daquele país acompanhando as competições. No Rio, nosso time de NOC assistants tinha vários estrangeiros que não entendiam nada de português. Um aviso: suponho que no Pan o espanhol seja quase tão obrigatório quanto o inglês.

O colunista (de costas, à esquerda) em um dia de trabalho na zona mista do esqui alpino, nos Jogos Olímpicos de Inverno de Turim-2006. (Foto: Arquivo pessoal)
O colunista (de costas, à esquerda) em um dia de trabalho na zona mista do esqui alpino, nos Jogos Olímpicos de Inverno de Turim-2006. (Foto: Arquivo pessoal)

Se não é necessário ter experiência profissional prévia, que tipo de trabalho um voluntário faz? Para uma descrição mais abrangente das funções e o que se faz em cada uma delas, recomendo dar uma olhada na página de voluntários de Paris-2024 (as inscrições só abrem em 2023), role a página até “Volunteering opportunities”. E o que eu fiz? Em 2006, no time de operações de imprensa, organizávamos a “redação central” da cidade de Sestriere, com várias posições de trabalho para os jornalistas, e as duas redações menores nos locais de competição de Sestriere Colle e Sestriere Borgata; cuidávamos da zona mista, a área onde os atletas dão entrevistas depois de competir (por exemplo, garantindo que os jornalistas ficassem nas áreas de seu respectivo idioma); levávamos resultados parciais das redações para a zona mista (lembrem, 2006 é uma época pré-smartphone); e organizávamos as entrevistas coletivas dos medalhistas. No Rio, os NOC assistants ajudavam os chefes de missão realizando todo tipo de tarefas para que eles pudessem se concentrar no seu trabalho de coordenar a delegação. Pegar correspondência, inspecionar apartamentos antes da chegada dos times, servir de intérprete, correr atrás de serviços de manutenção que fossem necessários, guiar as delegações dentro da Vila para o embarque no dia da cerimônia de abertura, conseguir horários e chaveamentos das provas, enfim, era uma coisa meio secretário, meio tradutor, meio guia.

Um presente do chefe de missão da delegação cambojana no Rio: até hoje mantenho contato com vários membros do time. (Foto: Arquivo pessoal)
Um presente do chefe de missão da delegação cambojana no Rio: até hoje mantenho contato com vários membros do time. (Foto: Arquivo pessoal)

Por fim, algo que tem de ser dito: voluntariado não é um atalho para ver Jogos Olímpicos ou Pan sem ter ingresso. Arrisco dizer que a maioria das funções nem permite ao voluntário estar nos locais de competição, ou restringe essa permissão a apenas um esporte, como foi o meu caso em 2006 – minha credencial me deixava entrar livremente apenas nas áreas do esqui alpino. No Rio, só assisti a competições fora do horário de trabalho ou nos dias de folga, e com ingresso comprado; as exceções foram as provas que vi com ingressos que a organização deu de presente aos voluntários na segunda semana de jogos. Também não vi nenhuma cerimônia de abertura, mas voluntários puderam ver ensaios tanto em Turim quanto no Rio. Tem gente que pega o uniforme, a credencial e nunca mais aparece para trabalhar? Tem. Mas não seja esta pessoa.

Costumo dizer que, depois de casar e ter filhos, ter sido voluntário olímpico foi a coisa mais incrível que já fiz na vida. Certamente tentarei mais vezes, assim que as circunstâncias permitirem, e, caso o leitor tenha se animado com a ideia, espero muito que consiga colocá-la em prática.

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