Após uma partida do Campeonato Mundial de vôlei masculino, em 2018, Wallace e Maurício Souza posaram para uma foto fazendo um “17” com a mão – o número do então candidato Jair Bolsonaro. Eles estarão em Tóquio, e provavelmente há mais gente na delegação com a mesma posição política deles (embora Wallace tenha dito se arrepender da foto). Em setembro de 2020, Carol Solberg soltou um “fora Bolsonaro” em entrevista depois de uma partida do Circuito Brasileiro de Vôlei de Praia. Ela não estará em Tóquio, mas provavelmente há mais gente na delegação com a mesma posição política dela. Vou torcer mais ou menos para algum atleta brasileiro por causa disso? Nem de longe.

Atletas têm todo o direito a ter suas preferências políticas, e têm todo o direito de expressá-las dentro dos códigos de conduta dos seus clubes, federações, o que for (essa, aliás, é uma outra discussão que dá muito pano pra manga). Mas elas não passam disso: opiniões de alguém que não é da área, e que valem tanto quanto as opiniões de inúmeras outras pessoas – artistas, YouTubers, coloque aqui a categoria que você quiser – sobre política. Se damos importância demais a isso, é porque viramos vítimas daquilo que o Gabriel Ferreira chamou, lá em 2013, de “caetanização”, um fenômeno que tem duas características. A primeira é:

“a automática e imediata promoção de certos indivíduos de visibilidade pública inegável à esfera dos intelectuais. Aqui pouco importa a definição que se queira dar a essa classe, bastando apenas apontar seu efeito principal: a disponibilidade e a abertura subserviente dos meios de comunicação para que tais sujeitos nos brindem com suas opiniões sobre a mais variada pletora de temas e problemas, de economia e política a artes e mecânica quântica.”

E a segunda,

“a trasladação instantânea do prestígio e sucesso alcançados em uma área específica para todo e qualquer assunto ou questão dos quais esses baluartes possam porventura tratar. O sucesso da música, da novela, da exposição; os gols feitos na rodada, ou a mais remota hipótese de perseguição durante a ditadura operam como uma espécie de toque de Midas espiritual sobre as faculdades intelectivas, que converte tudo o que é dito ou escrito não em ouro, mas em análise respeitável e a priori abalizada.”

A “caetanização” destrói o debate político nacional. E é por isso que também vejo valor na atitude de vários outros esportistas que têm suas convicções políticas, mas que preferem guardá-las para si porque o que importa é o seu desempenho como atleta – ainda mais nesses tempos, em que há tanta pressão para que todas as celebridades se posicionem sobre absolutamente tudo. Escolhem se resguardar (embora, como eu disse, têm todo o direito de se manifestar) mesmo sabendo que não serão compreendidos, chamados de “omissos”, de “isentões” e o que mais o vocabulário da polarização reservar para esses casos.

(Uma discussão diferente é o que fazer quando o que está em jogo não é tanto uma opinião política legítima, mas o caráter de um atleta. Em arte é um pouco mais simples, podemos admirar um filme de um estuprador como Polanski e um quadro de um assassino foragido como Caravaggio por entender que a obra transcende o autor. Mas a medalha é do competidor, estará sempre indissociada dele. Torço para o sucesso de um mau-caráter público e contumaz? Eu realmente não sei a resposta.)

O que me interessa é o que o atleta faz em quadra, no campo, na pista, na raia, onde for, e não a sua posição política. Se estiver lá em Tóquio defendendo o Brasil, terá a minha torcida, ainda que discorde frontalmente de mim em outros temas. Se eu faço questão de não afastar de mim amigos e parentes que discordam de mim sobre política, Bolsonaro, Lula, STF, CPI, vou agora ficar de implicância porque um atleta discorda? A política já estragou muita coisa por aqui, como lembrou outro dia o Polzonoff. Não vai estragar o meu prazer de torcer pelo Brasil no evento esportivo que eu mais amo.

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