É semana de Natal, e logo vem o ano novo. É um tempo especial; hoje não vou tratar de esporte e política, boicotes, lacrações e outros aborrecimentos olímpicos. Até podia ir pro lado bom e falar do que promete ser uma inesquecível cerimônia de abertura em Paris, ou das promessas brasileiras em Pequim. Mas hoje quero mais que isso, quero oferecer ao leitor uma inspiração: quero que vocês conheçam Nary Ly e a história de uma sobrevivente que virou cientista, e de uma cientista que virou atleta olímpica – história que ela mesma conta em sua autobiografia.

Trabalhei nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro como voluntário na Vila Olímpica, na função de “assistente de comitê olímpico”, ou “NOC assistant”. Cada um de nós era designado para ajudar uma delegação, e a minha era a do Camboja. Pela natureza meio administrativa da função, um NOC assistant não costuma interagir tanto com os atletas, passando mais tempo com o chefe de missão. Mas com delegações pequenas há mais chances de ao menos conhecer e conversar um pouco com os competidores, e foi assim que eu conheci Nary. Lembro de termos conversado um pouco uma manhã no Village Plaza, e recordo com carinho o nosso encontro casual dentro de um ônibus na Vila – eu estava me despedindo do Rio e voltando para Curitiba na reta final dos Jogos, já que meu filho tinha resolvido nascer antes da hora. Hoje, depois de ter lido The Nary Ly story: survivor, scientist, olympian, lamento não termos conversado mais, nem ter acompanhado sua prova (era meu dia de folga e eu tinha ingressos para outras competições).

A corrida apareceu tarde na vida da refugiada asiática que só queria ser uma garota francesa como todas as outras, mas que acabou se reconectando com seu país natal e decidiu fazer algo por ele, tanto do ponto de vista simbólico quanto prático

Antes do Rio, tudo o que eu sabia sobre o Camboja eram o genocídio do Khmer Vermelho e que era lá que ficava o complexo de Angkor Wat. Quando recebi o e-mail dizendo que tinha sido designado para a delegação cambojana, comecei a pesquisar sobre o país, sua história e seus hábitos (você não quer cometer nenhuma gafe fazendo ou dizendo algo inapropriado, certo?) – até hoje sigo lendo tudo o que me cai na mão sobre o país. E é com o Khmer Vermelho que a história de Nary Ly começa. É emblemático que ela tenha vindo aos Jogos Olímpicos que tiveram, pela primeira vez, um time de refugiados, pois também ela havia sido refugiada: era uma criança, a mais nova de sua família, quando começou o genocídio comunista. Perdeu o pai, executado por uma bobagem qualquer, como foram tantos outros sob a loucura de Pol Pot. Com o fim do regime do Khmer Vermelho, Nary foi parar em um campo de refugiados no Vietnã e, dali, teve a chance de ir para a França, deixando para trás a mãe e os irmãos.

Só por este início você já percebe que a história de Nary não é como a de outros atletas olímpicos cujas biografias estão por aí. Ela não despertou cedo para o esporte, não foi alguém cujo talento para alguma modalidade foi reconhecido e lapidado até se tornar um supercampeão. A corrida – e, mais especificamente, a maratona – apareceu tarde na vida da refugiada asiática que só queria ser uma garota francesa como todas as outras, mas que acabou se reconectando com seu país natal e decidiu fazer algo por ele, tanto do ponto de vista simbólico quanto prático. O Camboja arrasado pelo Khmer Vermelho e pelas disputas que se seguiram ao fim do genocídio precisava ser reconstruído. Nary Ly decidiu que seria parte disso, e foi, mas o primeiro caminho que ela escolheu foi a ciência. Construiu uma carreira até então inédita para uma mulher cambojana, obtendo doutorado e pós-doutorado; seus estudos e trabalho a levaram a instituições de ponta na França e nos Estados Unidos, e de volta ao Camboja, onde trabalhou com doenças infecciosas e se empenhou na formação de um corpo de cientistas cambojanos, já que toda a intelectualidade do país tinha sido dizimada pelos homens de Pol Pot.

E seu encontro com o esporte teve tudo a ver com seu trabalho de cientista: quando se inscreveu na Meia Maratona Internacional de Angkor Wat, em 2006, ela nem sequer sabia se seria capaz de completar a corrida; só queria ajudar a levantar fundos para o combate à Aids no Camboja. Mas ouviu da organização que era a primeira vez que uma cambojana se inscrevia para a prova – que ela completou, de forma bem satisfatória até. Ali surgia sua paixão por competir em corridas. Não demorou muito para que ela estabelecesse outro objetivo tão ambicioso quanto os diplomas que ela conquistou, e igualmente inspirador, principalmente para as mulheres de sua nação: ser a primeira cambojana a correr uma maratona olímpica.

A realização desse sonho exigia um desafio duplo: melhorar seu nível técnico e convencer os dirigentes esportivos de seu país de que era uma boa ideia mandá-la para os Jogos Olímpicos, já que ela precisaria de um convite caso não conseguisse o índice olímpico, como acabou ocorrendo. Nary foi treinar no Quênia, se destacou em outras corridas, conquistou fama e acabou aceitando, de última hora e meio “na pressão”, participar de uma superprova de resistência em seu país que mudaria – de novo – sua vida esportiva e pessoal, colocando-a definitivamente no rumo certo para chegar àquele 14 de agosto de 2016.

Lendo a vida de Nary Ly, percebo que completar uma maratona é meio que ser um sobrevivente. São 42.195 metros, 42.195 chances de algo dar errado. Um tropeção, uma pisada em falso, uma cãibra, alguma coisa que começa a doer do nada, um ex-padre irlandês, até uma ação inocente que acaba virando um problema, como a água que Nary jogou sobre a cabeça para se refrescar, mas que correu por todo o seu corpo e encharcou suas meias, causando-lhe bolhas nos pés. Mas eles persistem (e ninguém desiste sem ter ido até o seu limite), como Nary persistiu. Persistiu quando saiu viva do horror comunista, quando enfrentou o choque cultural e até o preconceito em um novo país, quando não se resignou com um currículo mediano e mergulhou no estudo para construir uma carreira científica notável, quando não se deixou abater pelas mazelas que viu quando quis ajudar a reconstruir sua terra natal, quando esbarrou na burocracia da cartolagem enquanto perseguia seu sonho olímpico. O foco e a resiliência que todo maratonista precisa ter para completar uma prova carregaram Nary ao longo de toda a sua vida. A maratona do Rio não foi seu melhor tempo, mas foi um resumo de tudo que ela passou para chegar até lá. Entre as que terminaram aquela maratona olímpica, ela chegou em último – mas triunfou.

Nary Ly e o espanhol Salva Calvo, seu parceiro e treinador; o casal mora hoje em León, na Espanha, onde ela terminou sua preparação para a maratona do Rio. Foto: EFE/J.Casares
Nary Ly e o espanhol Salva Calvo, seu parceiro e treinador; o casal mora hoje em León, na Espanha, onde ela terminou sua preparação para a maratona do Rio. Foto: EFE/J.Casares| EFE

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