A coluna traz um artigo em cinco partes sobre como a Copa do Mundo há 15 anos "escapou" da Europa Ocidental, onde estão os maiores clubes, jogadores e técnicos e o melhor futebol praticado no planeta. A maior competição entre seleções migrou neste século para países classificados como mais corruptos e serve de ferramenta no jogo geopolítico de uma pequena e rica nação. Abaixo, a terceira parte. Clique aqui para ler a primeira e clique aqui para ler a segunda.

E o que há em comum entre as nações que sediaram as últimas edições da Copa do Mundo? Antes delas, o evento aconteceu na Alemanha, em 2006, nona do ranking entre os países menos corruptos segundo a Transparência Internacional. Fica atrás de, pela ordem, Dinamarca, Nova Zelândia, Finlândia, Singapura, Suécia, Suíça, Noruega e Holanda. Os japoneses aparecem na 19ª colocação e os sul-coreanos em 33º. Não, essas não são posições ruins.

Mas do nono colocado no ranking dos países menos corruptos do planeta, a Copa viajou para o atual 69º, a África do Sul, que estava em posição ainda pior quando escolhida sede do Mundial de 2010, o primeiro em solo africano. De lá, em 2014, para o Brasil, hoje dividindo a 94ª colocação com Etiópia, Cazaquistão, Peru, Sérvia, Sri Lanka, Suriname e Tanzânia.

O Mundial de 2018 foi na Rússia, hoje no Ranking da Corrupção da Transparência Internacional no 129º posto, ao lado de nada menos que Azerbaijão, Gabão, Malaui e Mali. A Copa de 2022 será na nação 30ª colocada, à frente de Portugal e Espanha, por exemplo. Mas a questão aí não é o que se corrompe no dia a dia, mas sim o que se teria corrompido para que o país fosse escolhido como sede.

Fato é que uma nação como o Catar se esforça demais para ser reconhecida mundialmente. Há tempos habilita-se a sediar vários eventos internacionais, faz uma década comprou o Paris Saint Germain, pagou 222 milhões de euros para tirar Neymar do Barcelona, e já patrocinou, por meio de suas empresas, como a Qatar AirWays, a Libertadores, o time da Roma e o Boca Juniors.

Não, isso não é feito porque o Emir tem uma queda por esportes e eventos diversos. Tudo faz parte de uma estratégia de defesa do emirado. O Catar possui a terceira maior reserva de gás natural do planeta, beirando os 14% da produção mundial. E não tem muito mais do que 2,7 milhões de habitantes. Portanto, sobra dinheiro, e como.

Mas isso também faz vulnerável o território comandado por Tamim bin Hamad bin Khalifa Al Thani, coroado Emir em 2013, depois que seu pai abdicou. Em 1990 isso ficou ainda mais perceptível quando Sadam Hussein fez o Iraque invadir o Kuwait, o que provocou a Guerra do Golfo, com um país pequenino enfrentando o que teoricamente poderia ocorrer com os cataris e suas riquezas extraídas do solo.

Assim, houve o desenvolvimento de uma estratégia que engloba o futebol, não apenas com a Copa do Mundo de 2022, como também as últimas edições do torneio Mundial de Clubes da Fifa, que lá foram disputadas. Ao mesmo tempo, fora do campo, o Catar foi atrás de alianças que o blindem de possíveis invasões, afinal, está cercado de países com os quais não tem mais relações diplomáticas.

Lá existe até uma base da marinha americana, o que, em tese, reduz as possibilidades de uma investida sobre seu território partindo do Irã, ou de outra potência da região. Mas essa diplomacia "camaleônica" gera rejeição naquele pedaço do mundo, que vem de grupos fundamentalistas muçulmanos, por exemplo. Hoje o governo de Doha é visto como capaz de abrigar militares dos Estados Unidos e manter relações com o movimento islamista palestino sunita Hamas, por exemplo.

Na quarta e última parte, quinta-feira, 6 de maio: Dinheiro desperdiçado e os dois grandes estádios separados por uma rua

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