Atuar defensivamente já foi considerado uma vergonha no futebol brasileiro. Na visão de muitos, algo incompatível com time grande, com a tradição da bola jogada por aqui. Exagero. O esporte pode ser praticado de diferentes maneiras em busca da competitividade, e entre elas há a estratégia calçada na retaguarda sólida. Por outro lado, não estaria havendo um outro tipo de excesso, com a exaltação do jogo feio no país?

Na noite de quarta-feira o Corinthians foi ao Maracanã para não perder para o Flamengo pelas semifinais da Copa do Brasil. Saiu do pífio gramado do palco da final do Mundial de 2014 feliz com o 0 a 0. E nas arquibancadas, os quase 2,2 mil corintianos festejavam loucamente o placar em branco, como se fosse uma goleada. Parece que agora estamos mesmo em outro extremo.

Nos 90 minutos o Corinthians de Jair Ventura não endereçou uma vez sequer a pelota na direção da meta rubro-negra. Suas quatro finalizações não tiveram o caminho que do gol, em que pese as duas jogadas perigosas na primeira etapa, uma delas após falha de presente dado pelo rubro-negro Paquetá. Isso basta para o atual campeão paulista e brasileiro? Será mesmo que os alvinegros precisavam se trancar de tal forma?

O time foi tão pouco ao ataque que cruzou apenas uma vez na área rival, não teve um escanteio sequer a seu favor e rebateu a bola para longe de sua área 52 vezes. Sim, isso mesmo, os alvinegros premiaram a torcida com mais de meia centena de chutões e bicos para o alto. São índices assustadores para um grupo de atletas que veste camisa tão pesada.

Há quem entenda tal comportamento devido às limitações técnicas de um elenco que retrata a falta de dinheiro no clube paulista, endividado até a medula. Acham que não há como fazer mais com os atuais jogadores. Será? Dez dias antes o Ceará, com um dos menores orçamentos da Série A, esteve no mesmo estádio enfrentando o mesmo Flamengo. E venceu o jogo pelo Brasileirão na quinta e última finalização certa das nove que desferiu.

Três dias depois do ferrolho corintiano o Vasco, bem desfalcado e na zona de rebaixamento para a segundona, reforçou a tese ao agredir os rubro-negros em Brasília– foram 16 finalizações, sete no alvo. O time vascaíno merecia vencer, mas sofreu o empate (1 a 1) ao fazer um gol contra. O arqueiro rubro-negro, Diego Alves, trabalhou mais do que Martin Silva.

Sim, é possível fazer mais. O Corinthians poderia e deveria mostrar mais no Maracanã. Contudo nos acostumamos com pouco, aceitamos de tudo pelo resultado e perdemos boa parte da capacidade de nos indignarmos com o mal jogado. Ultimamente o apenas limitado, esforçado, retrancado tem nos bastado. O controle de qualidade é baixíssimo.

E o Corinthians é o atual campeão brasileiro! Nas prática defende o título nacional toda vez que entra em campo. E no Rio de Janeiro o fez praticamente sem atacar. Nem o surpreendentemente e pequeno Leicester, após arrebatar o título da Premier League em 2016, se fechou de tal forma no certame seguinte. E estamos nos conformando com isso? A resposta é sim.

Não por acaso, o Palmeiras, com o maior investimento de um clube no futebol brasileiro, tem entre os nomes mais relevantes nos últimos jogos um dos mais limitados atletas do grupo: Deyverson. Isso com elenco repleto de bons e ótimos jogadores, além da decantada estrutura que proporciona ao seu treinador inúmeras possibilidades de montagem da equipe.

Isso ocorre porque o time alviverde atua, claro, na tônica de Luiz Felipe Scolari, com a estratégia apoiada em bolas alçadas para que o grandalhão lá na frente brigue com a zagueirada. Sem ele, suspenso, na derrota para o Cruzeiro pela Copa do Brasil o grupo sentiu. Reflexo da falta de repertório, da dificuldade para se adaptar a uma forma diferente de jogar. É o samba de uma nota só.

Mas na média a qualidade técnica dos atletas palmeirenses está acima da maioria dos rivais, e a velha tática “Scolariana” dá certo, ou vinha dando certo até a derrota para o campeão mineiro e do mata-mata nacional. Se o jogo é rústico, antiquado, abaixo daquilo que o grupo de jogadores poderia oferecer, pouco importa, desde que vença, mesmo se os adversários não forem dos melhores.

Pouco se questiona qualidade de jogo e mal se cobra o desenvolvimento do real potencial de um elenco caro. Brasileiros se transformaram em radicais do “resultadismo”, com fortes e atuantes segmentos dentro da imprensa esportiva. E assim, o Brasil virou, mesmo, um lugar onde poucos notam o básico: quem joga bem fica mais perto da vitória. Bem-vindo ao país do jogo feio.

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CORITIBA

Luiz Henrique/Figueirense FC

Argel é o técnico adequado em times desesperados para evitar um rebaixamento. Pode funcionar na contramão disso, ou seja, tentando subir. O Coritiba deverá ser mais guerreiro com ele, mas é difícil saber se isso será o bastante. Na derrota da noite de sexta-feira ante pouco mais de 4 mil torcedores, o sonho da volta à primeira divisão ficou bem mais longe.

Precocemente o time parece se afastar da luta pelo acesso a cada tropeço. A esperança era coletar muitos pontos na sequência de quatro partidas na qual três serão em casa. Mas o Londrina venceu com um gol no lance final em pleno Couto Pereira e a distância para o quarto lugar, que leva à Série A, subiu de seis para sete pontos com menos três a disputar.

A diretoria pensa num plano B para 2019 depois de um ano priorizando a redução da dívida herdada de R$ 246,1 milhões. A atual gestão afirma ter pago no primeiro semestre R$ 16,9 milhões referentes a dívidas a acordos trabalhistas, parcelas atrasadas do setor Pro Tork do estádio e do Profut, entre outros tributos. O presidente Samir Namur diz ter reduzido em R$ 10 milhões os gastos, com lucro de R$ 1,9 milhão na primeira metade de 2018.

No entanto, seguir mais uma temporada na segunda divisão significaria redução, drástica, de receita. Uma encruzilhada na qual se encontra o Coritiba, que jogará suas últimas fichas buscando vitórias sobre CRB (fora), Avai e Juventude (ambos no Paraná). Se milagrosamente fizer nove pontos, voltará a sonhar, contudo, o Coxa precisou de 10 partidas para acumular essa pontuação em suas mais recentes aparições.

Argel chega para tentar um grande feito. Não é impossível, mas improvável.

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PARANÁ

Albari Rosa/Gazeta do Povo

A troca de Rogério Micale por Claudinei Oliveira deu ao Paraná um comportamento defensivo mais indicado para o elenco tricolor. Desde então o time não sofreu mais de dois gols num jogo, foram nove em sete aparições sob o comando do treinador. Mas com apenas dois tentos marcados, justamente no par de partidas que o time não perdeu, 1 a 1 com São Paulo e Chapecoense.

Quando Claudinei chegou à Vila Capanema, o Ceará tinha um ponto à frente do Paraná, eram os dois piores times na classificação da Série A. Hoje o time do ex-técnico paranista Lisca “Doido” tem 11 a mais. A equipe curitibana segue na lanterna absoluta. Já o alvinegro cearense deixou a zona de rebaixamento ao bater o Vitória sábado, simultaneamente à derrota para o Grêmio, sofrida pelo Paraná, que fez um ponto (1 a 1 em Chapecó) em 36 possíveis fora de casa.

O clube tem tudo para fechar o ano com a pior campanha de um visitante na “Era” pontos corridos. A segunda divisão se aproxima de maneira rápida e incontestável.

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ATLÉTICO

Marcelo Andrade/Gazeta do Povo

Quatro vitórias em casa seguidas de três derrotas fora. Ao retornar à Arena da Baixada, o Atlético fez 3 a 1 sobre o Fluminense e retomou sua recuperação no campeonato brasileiro, saindo da 19ª para a 11ª posição após a Copa do Mundo. Mas apenas cinco dos 25 pontos que o time acumulou até aqui foram conseguidos fora de seu estádio.

A campanha como visitante é a quarta pior, digna de rebaixamento e a forma como o time permitiu a virada da Chapecoense na quinta-feira merece uma boa reflexão. Até porque dois dos três próximos compromissos serão longe de Curitiba, o primeiro deles na Venezuela, quarta-feira, pela Copa Sul-americana contra o Caracas.

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