Nos acostumamos aqui no Brasil a jogos de futebol ruins, pautados em propostas de jogo no mínimo medíocres, quando não pior. Times calçados em defesas repletas de jogadores sem grandes recursos tendo a posse, bons cobradores de faltas e escanteios para as jogadas de bolas paradas, treinos limitados aos insistentes cruzamentos, poucos jogadas trabalhadas. Uma pobreza.

Quando Dunga comandava a seleção brasileira que iria à Copa do Mundo de 2010, na África do Sul, cobri inúmeras vezes as atividades ministradas por ele e seu então auxiliar, Jorginho, hoje técnico do Cuiabá; na Granja Comary, em Teresópolis (RJ). Muitas foram as ocasiões nas quais a maior parte do trabalho foi de cruzamentos de ambos os lados para que, na corrida, alguém finalizasse, principalmente de cabeça.

O treinador que a CBF inventou não era caso isolado. Muitos profissionais se debruçaram nos primeiros anos desse século no jogo simplificado. Destruir é mais fácil do que construir. Acertar um cruzamento é menos trabalhoso do que desenvolver jogadas trabalhadas. Atuar fechado, marcando no próprio campo, menos complexo do que apertar o oponente contra sua linha defensiva.

Ora, se existem atalhos, por que não a eles recorrer? Esse era o lema de inúmeros profissionais por aqui. O resultado? Atraso tático, pobreza de ideias, jogos nos quais as duas equipes rejeitavam a bola, empurrando-a para o adversário como se fosse um problema. E ela de fato era para muitos. Ao mesmo tempo, parte da torcida e da mídia passou a tolerar isso, se acostumaram com pouco. Ou nada.

Para defender essa filosofia de jogo, se é que podemos assim defini-la, os argumentos são, em geral, resultadistas. Mas, se praticamente todos jogam desse jeito, alguém terá que vencer e títulos não escondem defeitos de uma equipe de futebol, apenas maquiam. Mas poucos queriam (e querem até hoje) enxergar a realidade. Melhor exaltar as vitórias, mesmo que não proporcionem legado algum.

Não é coincidência que no ano que vem o último título mundial da seleção brasileira complete 20 anos. O penta de 2002 veio com um treinador que bem simbolizava esse tipo de jogo que reinou por muito tempo. E ele segue na ativa, mesmo depois de levar de 7 a 1 há sete anos. Mais uma evidência de nossa pobre renovação em matéria de propostas. Assim, os europeus eliminaram o Brasil em 2006, 2010, 2014 e 2018.

Mesmo em casa, o Palmeiras de Abel Ferreira foi a campo na terça-feira (21) preocupado em não perder para o Atlético-MG. O Galo, por sua vez, tinha a bola, não demonstrava competência para furar o bloqueio defensivo rival, mas seu técnico, Cuca, demonstrou satisfação após o cotejo. Foi o segundo horrível jogo importante entre os dois treinadores em Libertadores, o outro foi a última final, em janeiro.

Há quem faça malabarismos para ver virtudes no que estava em campo. Alguns por gratidão ao português, campeão em 2020, outros por receio de criticar e sofrer nas redes sociais, além daqueles que seguem acostumados à mediocridade. Ou menos. Por que Palmeiras 0x0 Atlético, mesmo com bons jogadores em campo, foi abaixo de medíocre, foi péssimo. E não devemos tolerar isso.

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