Nas últimas semanas um caso ganhou repercussão na janela de transferências internacionais dos times de League of Legends. Um dos melhores jogadores do ocidente, Luka “Perkz” Perković, está de saída da Cloud9. Para onde vai? Rumores apontam Vitality, mas o que não poderia acontecer, de acordo com o contrato assinado, era que ele fosse para a Fnatic.

Voltando no tempo: ao final de 2020, G2 esports acertou a venda de Perkz para a C9, em um contrato de três anos. Um ano depois, a C9 se despediu do jogador, que queria retornar à Europa, para ficar mais próximo da família, já que o cenário da pandemia evitou que ele viajasse dos Estados Unidos para o Velho Continente.

O que causou o frisson foi uma das cláusulas do contrato firmado ano passado: a G2 impediu que a C9 vendesse Perkz para a Fnatic, outro time europeu. A informação foi descoberta e divulgada pelo Dot Esports, que teve acesso a uma cópia do contrato.

Esta cláusula não só é antiética como antidesportiva. Como uma equipe pode proibir outra de negociar um atleta com quem queira? E como a outra equipe se sujeita a um papel desse, de aceitar que não possa negociar com um time? Mesmo que tenham vários outros times, europeus ou norte-americanos,  que a C9 poderia negociar, ainda assim é uma imposição ridícula por parte da G2.

Afinal, por que a G2 precisou colocar essa cláusula? Receio de que se o Perkz fosse para a Fnatic a equipe ficaria muito forte e, consequentemente, dificultaria a chance da G2 ganhar o torneio? Se sim, então por que negociar o atleta em primeiro lugar? De qualquer maneira, quem não apareceu no mundial este ano foi a G2, depois de duas boas edições em 2019 e 2020.

Esse posicionamento da C9, em aceitar essa imposição, nos remete a algo que estamos acostumados a ver no futebol (especialmente brasileiro). Refiro-me quando os clubes passam a pensar apenas no que é bom para eles próprios, sem enxergar o todo e agir como bloco – o que garante um poder muito maior de barganha em qualquer negociação. Na ocasião, para a C9 importou apenas ter o ótimo jogador em seu elenco, mesmo que tivesse que abrir mão de um único destino que pudesse negociar ele. Afinal, ainda restariam muitos outros.

Sobre o envolvimento de Perkz, até o momento não há nada que indique que ele estava sabendo da restrição no contrato. Inclusive porque após deixar claro que não queria continuar na região americana do LOL, chegou a conversar com a Fnatic. O acordo não foi fechado pelo fato dos clubes não entrarem em acordo quanto ao salário do jogador.

E nesse imbróglio entra a Riot Games. Após a denúncia, a entidade colocou mãos à obra e foi investigar. De início, a Fnatic reportou para a Riot europeia a situação. Como a LCS (liga dos EUA) autorizou a cláusula no contrato, já gerou um mal-estar. Como o órgão responsável pelo esports do League of Legends em uma das maiores regiões do mundo permite que esse tipo de imposição seja feita?

Enfim, o caso foi alçado ao nível global da Riot, por se tratar de regiões diferentes envolvidas. E qual foi a decisão da empresa? Confira abaixo:

Basicamente: lavou as mãos. A Riot reconheceu que até o momento não há nenhuma política se tratando de transferências futuras. Ainda disse que o assunto é de empresas privadas e que deve ser resolvido mediante as leis locais - o que por si só já é um problema, já que um time é dos EUA e outro da Alemanha. Apesar de dar esse lado, ao mesmo tempo, ela se manifestou contra, dizendo que não é algo que a Riot apoie ser feito e que aceitaria a transferência de Perkz para Fnatic, caso os papeis apresentados estivessem todos dentro do esperado.

A Riot finaliza a nota dizendo que vão atualizar as regras para que não ocorra isso no futuro, porque esses valores não estão de acordo com os valores e interesses do seu esporte.

Por mais que a Riot tenha utilizado de uma tecnicalidade (de não haver nenhuma menção de negociações futuras nas regras) para não punir as equipes, a medida é tão claramente antidesportiva que precisava de uma resposta energética da Riot. Precisava também de um esclarecimento: como a LCS permitiu esse contrato em primeiro lugar? Como uma organização que gere o esport, que é um braço da própria Riot, não se atentou ao claro abuso no contrato? Valia a pena por ter Perkz em solo americano e, quem sabe, aumentar a força da região?

Por ser uma medida tão contraria ao desenvolvimento do esport da Riot, tanto que irá fazer ela mudar suas regras, soa estranho que não houve nenhuma punição aos envolvidos. Não precisava de multas milionárias ou punições esportivas nos campeonatos, mas uma restrição em transferências em uma ou mais janelas seria o suficiente, por exemplo. Mas a Riot, ao mesmo tempo que tem que gerir e regular o esport, precisa saber lidar melhor com os erros de suas equipes, sem se preocupar se pode ou não estar desagradando os donos ou o público.

Participe da conversa!
0