Meu post de cornetada nos juízes e jurados da Olimpíada foi publicado, despretensiosamente, na segunda-feira. Tinha o objetivo de levantar essa discussão sobre a subjetividade dos esportes em que o atleta precisa convencer outras pessoas a lhe dar as melhores notas ao invés de ter que fazer mais pontos, chegar mais rápido ou ir mais longe que os adversários. Mas era um post de torcedor, sem nenhum embasamento técnico, apenas externando uma frustração com ótimos resultados no skate e na ginástica que poderiam ter sido ainda melhores.

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Porém, o que aconteceu nas duas últimas madrugadas mudou o patamar da queixa. As decisões polêmicas das arbitragens contra brasileiros transformaram-se em um dos principais assuntos dos Jogos de Tóquio. Primeiro foi no surf, com Gabriel Medina sendo eliminado, na semifinal, pelo japonês Kanoa Igarashi após o adversário ter recebido um 9.33 por uma manobra muito semelhante a duas anteriormente apresentadas pelo brasileiro e que lhe valeram pouco mais que 8 pontos. Ainda chamou a atenção a discrepância entre as avaliações dos juízes na onda vitoriosa do atleta da casa, com um dos cinco jurados dando nota 7.5 e outro 9.8. A maior e a menor nota são descartadas na busca por um equilíbrio na pontuação, evitando que um jurado cause uma grande distorção, mas chama a atenção o fato de dois jurados especialistas no que fazem, com base em critérios técnicos, para eles, bastante claros, avaliarem uma participação de forma tão diferente. A situação saiu do mimimi do perdedor ou da indignação do torcedor e virou debate no mundo do surfe, com muitos representantes do esporte (atletas, treinadores e jornalistas especializados) apontando uma discrepância incomum nas notas.

Na disputa do bronze, uma coincidência chamou a atenção. Medina acabou derrotado pelo australiano Owen Wright por apenas dois décimos (11.97 a 11.77) e todas as menores notas descartadas em todas as ondas surfadas pelo brasileiro na bateria foram a de um juiz australiano, Benjamin Lowe. Todas as notas de Lowe para o brasileiro foram descartadas, mas com isso, a menor nota de um juiz de nacionalidade neutra foi sempre computada à pontuação do brasileiro. Havia um jurado brasileiro na competição, também, Luiz Pereira, que não deu nem as maiores notas para Medina e nem as piores para Wright. Na última onda surfada por Medina, o brasileiro precisava de 6.2 para passar Wright. Para muitos especialistas, as manobras apresentadas foram suficientes para esse resultado, mas o brasileiro tirou 6.0. Para se ter um exemplo, Benjamin Lowe pontou essa onda com apenas 5.3, enquanto houve jurado que atribuiu 6.8 na mesma avaliação.

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O que aconteceu com Medina, no entanto, são “ossos do ofício”, de um esporte subjetivo. O que aconteceu com Maria Portela, não. A judoca brasileira foi derrotada pela russa Madina Taimazova (que acabou recebendo a medalha de bronze) após receber uma terceira advertência por falta de combatividade, depois de 10 minutos de tempo extra no golden score da luta. Nos quatro minutos de tempo regulamentar da luta, ninguém pontuou. No golden score, Portela acertou um belo golpe, a adversária bateu com os ombros no chão, mas a arbitragem, mesmo depois da checagem em vídeo, decidiu não pontuar. A brasileira foi mais agressiva, levou muito mais perigo à adversária e teve perto de finalizar na luta de solo, com chaves es estrangulamentos, mas, com o passar do tempo, sem que nenhuma atleta conseguisse pontuar, o árbitro puniu duas vezes, ao mesmo tempo, as duas judocas por falta de combatividade. Assim, quem recebesse a próxima punição estaria desclassificada. Assim que o relógio alcançou 10 minutos de prorrogação, o árbitro então decidiu punir a brasileira após uma tentativa de ataque sem nenhuma consistência da russa, deixando claro que ele decidiu, deliberadamente, dar a vitória a quem tentasse o próximo ataque, independente da efetividade da entrada.

Se a decisão contra Medina causou discussão que segue até hoje, a contra Portela nem teve discussão. Toda a comunidade do judô classificou o fato como o maior erro de arbitragem no judô olímpico.

Está começando mais uma madrugada olímpica. Com que juiz vamos pistolar hoje?

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