A imagem de Wanderlei Silva levantando o cinturão do Pride, aos gritos nas cordas do ringue japonês, nunca saiu da cabeça de Luiz Killer. Ainda adolescente, o curitibano alugava DVDs do extinto evento em locadoras do bairro onde morava e sonhava repetir os passos do ídolo. O que ele não imaginava é que, anos depois, pisaria no mesmo “olimpo do MMA”, carregando nas costas uma história marcada por dor, revolta e superação.

“Agora você chegou ao olimpo”, ouviu de Wanderlei em um churrasco de comemoração, após conquistar o cinturão do Rizin, no último dia 10, em Kobe, no Japão. Aos 29 anos, Luiz Killer entrou para um seleto grupo de curitibanos que viraram reis no país asiático, ao lado de Maurício Shogun e do próprio Cachorro Louco, campeões do lendário Pride.

Mas o caminho até o topo passou longe de ser fácil.

Em entrevista exclusiva ao UmDois Esportes, Luiz relembrou que encontrou nas lutas uma saída para escapar de um período sombrio da adolescência. O trauma começou aos 13 anos, quando o pai foi baleado. Dois meses depois, na noite de Natal, ele morreu.


“Se não fosse o esporte… depois que meu pai faleceu, no primeiro ano, eu taquei o f**-se. Eu estava revoltado. Fiz bastante coisa errada, brigava na rua, chegava tarde em casa, brigava com os meus irmãos”, contou o lutador.


A morte do pai virou o ponto de ruptura de uma família inteira. Sem condições de permanecer em Curitiba, Luiz e os irmãos se mudaram para Colombo, na Região Metropolitana, para morar com os avós. Em meio ao luto, o esporte apareceu como refúgio.

“Eu tinha começado no karatê em um projeto do bairro pouco antes do meu pai falecer. Eu já pedia para ele me colocar no muay thai, e ele ia me assistir treinando”, relembrou.

A promessa feita ao pai se transformou em combustível. Em meio à revolta, um pensamento mudou tudo.

“Um dia me bateu a ficha. Eu tinha jurado para o meu pai que seria campeão e daria do bom e do melhor para minha família. Voltei a treinar com 16 anos. Fui campeão antes dos 30. Foi isso que me salvou.”

Luiz Killer canta o hino brasileiro antes de luta no Rizin, no Japão
Luiz Killer canta o hino nacional durante cerimônia antes da luta que terminou com o cinturão do Rizin, no Japão. Foto: Divulgação.

A conquista heroica de Luiz Killer no Japão

A trajetória profissional também teve capítulos de frustração. Luiz Killer iniciou no MMA, sob o comando do mestre André Dida, da Brazilian TKO, há mais de dez anos e acumulou nove vitórias consecutivas antes de assinar com o Rizin, principal evento japonês da atualidade. Desde 2018 no Japão, o cinturão parecia próximo, mas escapava nos detalhes.


“A minha história foi essa: cheguei na frente do gol e bati na trave. Quando perdi, fiquei sem entender por tudo que eu treinava e fazia. Não consegui mostrar meu trabalho. Mas eu voltei e falei: ‘essa vai ser a minha história’. Agora eu cheguei, chutei e fiz o gol.”


No Japão, além das vitórias, Luiz também conquistou o carinho do público local. Mesmo acostumado ao jeito reservado dos japoneses, ele garante que se sente em casa do outro lado do mundo.

“O reconhecimento dos fãs japoneses é muito bom. O Japão é irado. É um povo silencioso, muito educado. A cultura é massa. Só não tem festa, a galera é mais fechada”, brincou.

Hoje, o garoto que alugava DVDs do Pride nas locadoras de Curitiba olha para trás e percebe que realizou exatamente a cena que sonhava repetir. E, assim como Wanderlei e Shogun fizeram um dia, Luiz Killer agora também tem seu nome eternizado entre os brasileiros que conquistaram o Japão.

Confira a entrevista completa com Luiz Killer

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