Montevidéu, como Buenos Aires, é cidade de cafés clássicos, que se tornam mais célebres ainda quando, na Rua XV, calçada fundamental de Curitiba, nem mesmo a sucos Wing sobreviveu, numa paisagem que, por mais quadras que se caminhem, não há quase nenhuma lembrança do que já fomos. Assim, é preciso valorizar o que se passou sob o risco de não ser mais nada.

Foi uma satisfação acordar na capital do futebol sul-americano, ao menos na semana que se inicia, neste sábado, 20 de novembro, e poder desayunar no salão que já recebeu figuras inescapáveis da sociedade uruguaia e, também, da literatura esportiva, como Eduardo Galeano. O café Brasileiro serviu, ainda, para encontros que jamais foram imaginados. Grandes amigos para qualquer aventura.

André Pugliesi/UmDois Esportes
André Pugliesi/UmDois Esportes

O café, que de brasileiro só tem o nome, marcou a largada de uma corrida que atravessou décadas em poucos quilômetros, da Cidade Velha até Punta Carretas, localização da batizada Enbajada del Hincha, uma enterprise do soccer business, espécie de Disneylândia de torcedores de balanço e influencers apaixonados por si mesmos.

Retrato do contraste que se precipitou por ocasião da decisão entre Athletico e Red Bull Bragantino, pela Sul-Americana. Nos moldes das "fan fests", já consagradas nas Copas do Mundo, o evento na capital uruguaia tinha a fest, mas não os fans.

Recheadas de experiências artificiais sobre futebol, esqueceu de ter torcedores, expulsos da finalíssima continental por causa dos valores extorsivos que envolvem a participação na arquibancada. Praticamente vazia por dois dias, ganhou alguns fans às vésperas do duelo e ficou, ao menos, mais fest.

Dali para o Centenário, o grande palco, devidamente maquiado, Estádio com E maiúsculo fantasiado de arena, a chance de conferir um pouco mais do teatro do soccer business, com as coletivas das equipes e o reconhecimento do gramado. No caso do Athletico, o passeio pela cancha foi precedido pelo encontro, um tanto engessado, do meia David Terans e do técnico Alberto Valentim com os membros da imprensa, algo ansiosos por repetir as mesmas perguntas.

 André Pugliesi/UmDois Esportes
André Pugliesi/UmDois Esportes

Bem mais interessante foi a turnê pela periferia de Montevidéu empreendida pelo repórter Fernando Rudnick e o fotógrafo Albari Rosa que revelou as origens de Terans no Jardines del Hipódromo. Do botija cansado de apanhar nas peladas do barrio, Terans ouviu os conselhos do pai, Rodolfo, e atropelou todos aqueles que, um dia, lhe deram as patadas pedagógicas.

É o futebol escorrendo pelas frestas do soccer business, como sempre fez e sempre fará, por mais que o rio da bola vá perdendo força. Maior do que o circo armado pelas entidades, maior do que o engajamento nas redes sociais, está o sonho de um uruguajo em coroar-se rei internacional do futebol perto de casa.

Ao fim do dia, todas as calles y veredas levam a alguma parrilla. Para, entre pans, chorizos, anchos e morcillas discutir-se os mesmos assuntos de ontem, que serão lembrados amanhã. Neste sábado, tem Athletico e Red Bull Bragantino, duas máquinas da "nova ordem" do futebol brasileiro, e é o que importa.

Até a próxima.

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