Montevidéu amanheceu no sábado, dia 20 de novembro, borrada de vermelho e preto. Não há nenhuma equipe na cidade que veste tais cores e, mesmo que não tenha sido a invasão que se espera para a decisão da Libertadores, com a expectativa de que chova flamenguistas, a mistura inflamava as ruas da lenta capital uruguaia.

Caídos de carros, ônibus, motos, aviões e, até, jatinhos particulares, torcedores do Athletico circulavam pelas ruas, trajados em rubro-negro, de bermuda, calça, boné, cata-ovo, chinelo, tênis e, até, sapatênis. Como a procurar, já cedo, a glória internacional ou, também, alguma coisinha para beber ou fumar.

Mas, claro, há sempre a provação do soccer business. Após os tremendos sacrifícios financeiros e físicos (menos para os dos jatinhos), foi inescapável, ainda, vencer horas de espera pela troca de um pedaço de papel que, você sabe, é sagrado: o ingresso. E mesmo intoxicados pela ansiedade, e outras substâncias, todos sobreviveram aparentemente.

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Enquanto isso, nós, do UmDois Esportes, perseguíamos essa emoção até a chegada ao Estádio Centenário, sede da primeira Copa do Mundo e de tantas histórias. Devidamente maquiado para o evento, engessado e previsível, o palco clássico, e nossa equipe, teve de suportar horas de interações constrangedoras e música em volume acachapante.

Os bastidores de grandes coberturas são mais monótonos do que se crê. Ao mesmo tempo em que a expectativa é imensa, bem como a repercussão, há uma série de restrições impostas aos jornalistas. Assim, boa parte do tempo é consumido com esperas congeladas pelo ar-condicionado da sala de imprensa.

Corridos todos os protocolos e solenidades que se repetem, ano após ano, tais como banda de abertura, entrada dos times em campo, hino e firulas como contagem regressiva para o pontapé inicial, eis que temos o que importa: 90 minutos de futebol e o barulho da torcida na arquibancada.

E aí, faço breve digressão sobre o fracasso de público da final única, mera constatação em que atleticanos e torcedores do Red Bull Bragantino são nada além de vítimas. A ideia, por si só, de concentrar tudo em apenas um jogo, em lugar incerto e não sabido, como justificativa para a venda de um "produto", é lastimável sob todos os aspectos.

Mas deixemos os planos da cartolagem para nos concentrarmos naquilo que provocou um Centenário lotado de espaços vazios. Ingressos a preços extorsivos (R$ 560, o mais barato), distância da sede dos clubes, custo elevado da viagem e, principalmente, todos os impactos incalculáveis de uma pandemia que trancou o planeta por quase dois anos.

Há, por fim, a figura dos sommeliers de participação popular nas histéricas redes sociais. Ora, é evidente que os dois finalistas da Sul-Americana não têm torcidas gigantescas como, por exemplo, os da Libertadores. Agora, cada torcedor que cruzou o sul do país até Montevidéu, deve ser considerado como uma multidão em si mesmo.

Mas, voltando para onde tudo acontece, "dentro das quatro linhas", como diria aquela figura boçal. Nós sabemos que, muitas vezes, os Deuses do Futebol, se é que existem, adoram escrever roteiros óbvios. Foi o que escreveram para Nikão, de quem se esperava o protagonismo na finalíssimas.

Do moleque que saiu de Minas Gerais para virar personagem de um GTA boleiro, Maycon Vinícius Ferreira da Cruz obteve vidas infinitas no CT do Caju, ao livrar-se da marcação do álcool e do cansaço provocado pelo peso das correntes de ouro no pescoço. Aprendeu, finalmente, a conviver com os traumas familiares, escorado pela família e a fé pessoal.

Com contrato próximo do fim, há meses Nikão vem se despedindo do Athletico e de sua torcida. Mas você sabe que a história nunca termina quando não está publicada. O tempo se encarrega de oferecer novos capítulos e o meia-atacante atarracado, de quem é impossível roubar a bola, registrou novo capítulo, este com ares de realismo fantástico.

No Estádio Centenário, no Uruguai, cancha em que tantos já experimentaram a glória ou infâmia eterna, Nikão coroou-se como jogador mais representativo do "new Athletico". Um clube, ou club, que é nada além do velho Atlético, só que imaginado por meia dúzia de publicitários. Mas, em campo, certamente, carregado de taças como jamais foi.

Eram 28 minutos da etapa inicial quando Pedro Henrique inverteu bola da direita para a esquerda, no sentido da área paulista. E aí, em toda campanha vitoriosa, sempre aparece um personagem incidental e fundamental. Já foi Jarlan Barrera e, desta vez, foi Aderlan, que vacilou no corte e deixou David Terans livre.

O problema, para o adversário, é que Terans nasceu nos Jardines del Hipódromo, barrio da periferia de Montevidéu e, mais do que todos os jogadores envolvidos na decisão, conhecia, ou melhor, conhece, os atalhos da cancha encravada num extenso parque. O meia uruguaio invadiu a área e disparou um balaço para encher ainda mais de orgulho o pai Rodolfo.

Mas o goleiro Cleiton estava com os reflexos em dia e fez tudo que podia fazer: espalmou. No entanto, Nikão estava por ali e fez o que não se aprende em escolinhas de futebol e sabe somente quem foi forjado nos campos de pelada e trocou socos e pernadas na infância. No momento fatal, o camisa 11 atirou-se ao ar e acertou um voleio acrobático: 1 a 0.

Dali em diante foi uma espera para a consagração de Nikão e do Furacão. Já se sabia que o Red Bull Bragantino tentaria vencer a Sul-Americana na bola, com a superioridade técnica e tática, que efetivamente possui. E que o Athletico precisaria, além de jogar bem, claro, comprovar o peso de sua camisa e o posto mais alto na hierarquia, como fez.

Apito final, todos os destinos traçados foram cumpridos. Nikão, como se imaginava, foi o personagem principal. O Athletico, como se previa, foi o bicampeão da Sul-Americana. E a torcida rubro-negra, como sonhava, fez valer todo o sacrifício ao voltar para Curitiba com a bela taça do certame no bagageiro.

Só o meu telefone, que sempre tocava depois dos jogos, não chamou, como era o costume até março de 2020. É a vida. Do outro lado da linha, quem me ensinou tudo sobre futebol e meu mais fiel leitor queria saber o que eu tinha achado. Eu sei que ele sabe, mas, não custa registrar: "Pai, o Athletico foi campeão de novo".

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