É segunda-feira (29) e ainda não assimilamos de todo a morte de Diego Maradona. A forma como aconteceu, o desespero dos argentinos, as vigílias pelo mundo, as lágrimas de tanta gente. Para a minha geração, essa que passou dos 40 anos recentemente e ainda não chegou aos 50, é um período bastante doloroso. É quando começamos a ver que a vida é finita e começamos a perder quem construiu nossa personalidade.

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"Ah, mas o Maradona a gente só viu pela TV, não tem nada a ver". Eu entendo quem tenha esse argumento, mas ele se choca com algo que se chama memória afetiva. Dieguito, assim como Fernando Vanucci, que também nos deixou na semana passada, estavam na nossa casa todo dia. Foram personagens que a televisão nos trouxe e que ficaram familiares.

Não era só o "alô, você" que faz lembrar de Vanucci. A cada carnaval fica a memória das transmissões dos desfiles de escola de samba, o Globo Esporte tá aí na hora do almoço. Com cinco, com dez, com quinze anos, ele estava lá na telinha de casa. Então é uma lembrança não só dele, mas também de uma vida que vivi e tantos outros viveram.

Fernando Vanucci estava todo dia em nossa casa. A morte dele atinge gerações de torcedores. Foto: Reprodução/TV Globo
Fernando Vanucci estava todo dia em nossa casa. A morte dele atinge gerações de torcedores. Foto: Reprodução/TV Globo

Maradona e tantos outros

Essa descoberta da finitude e essa estranha sensação de perda estão nos acompanhando neste macabro 2020. Desde Kobe Bryant (e já faz tanto tempo que nem lembrava que tinha sido nesse ano) até Maradona, passando por Vanucci e pelo Rodrigo Rodrigues, experimentamos essa dor coletiva, tão dolorida quanto inexplicável.

Não é como o luto familiar, sofrido e quase sem cura. É uma "dor que dói no peito", como diria Renato Russo, mas que acompanha uma nostalgia, o que os mais antigos poderiam chamar de banzo. Se quando perdemos entes queridos às vezes precisamos evitar fotos e lembranças porque elas te atingem como uma flecha, na perda de pessoas conhecidas a gente acaba se envolvendo em uma recuperação de fatos e eventos. Fizemos isso com Tom Veiga, o Louro José, há pouquíssimo tempo.

O gosto amargo da perda, entretanto, acaba sempre existindo. Quando meu pai faleceu, em 2011, não conseguia imaginar como seria a vida dali por diante. Talvez até hoje não saiba explicar, mesmo sabendo que é diferente. Maradona, RR, Tom, Vanucci e Kobe deixaram legiões de fãs saudosos, se perguntando como vai ser agora. Nunca vamos saber a resposta, apesar da estranheza que carregamos em nosso olhar.

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