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O erro de fazer 70 anos

Máquina de escrever antiga. Foto: Daniel Derevecki / Gazeta do Povo.
Máquina de escrever antiga. Foto: Daniel Derevecki / Gazeta do Povo.| Foto:
  • PorCarneiro Neto
  • 28/09/2018 11:49

A história e a vida mostram todos os dias que certas iniciativas produzem efeitos não desejados muito mais importantes do que os pretendidos.

Saul, por exemplo, pretendia apenas achar as mulas do pai, que tinham fugido. Acabou sendo sagrado primeiro rei de Israel pelo profeta Samuel.

Colombo tinha por objetivo encontrar novo caminho para as Índias. Descobriu a América e morreu sem ter-se dado conta disso.

A Pfizer desenvolvia um medicamento para melhorar a circulação sanguínea. Fez o grande campeão de vendas Viagra.

Os brasileiros estão caminhando para mais uma rotineira eleição na democracia. Mas a maioria absoluta está atônita com a mediocridade dos candidatos, com a ausência de propostas coerentes e com a incerteza geral que ameaça o futuro do país.

Quando você é jovem aceita as novidades e os fatos com naturalidade. Quando você é jovem tudo parece possível. Mas quando você fica mais velho, consequentemente mais experiente, mais curtido e, obviamente, mais desconfiado da própria existência, muda o enfoque. Ou o foco, como se diz modernamente.

Um famoso técnico de beisebol nos Estados Unidos fez 70 anos, ganhou o campeonato nacional e logo em seguida foi mandado embora pelo clube. A explicação foi que ele estava velho: “Nunca mais cometo o erro de fazer 70 anos”, comentou.

Morrer prematuramente, ou envelhecer: não há outra alternativa.

E entretanto, como escreveu Goethe: “A idade apodera-se de nós de surpresa”. Cada um é, para si mesmo, o sujeito único, e muitas vezes nos espantamos quando o destino comum se torna o nosso: o fim.

Resta aos velhos contar histórias e dar conselhos.

Mas La Rochefoucauld, há quase 400 anos, já achava que essa história de velho sábio era cascata: “Homens velhos gostam de dar bons conselhos porque não conseguem mais dar maus exemplos”. Trotsky, que só vivia para trabalhar e agitar o proletariado, temia envelhecer. Lembrava-se com ansiedade da definição de Tourgueniev que Lênin citava frequentemente: “Sabem qual é o maior de todos os vícios ? Ter mais de 55 anos”. Naquele tempo com 55 anos o sujeito já era considerado velho.

No caso de Trotsky, o ditador Stalin resolveu o problema ao mandar matá-lo, a machadadas, no México onde estava exilado brincando de comunismo com Frida Kahlo e outros menos votados.

O problema do envelhecimento é que surgem lapsos de memória, particularmente com nomes. Quando envelheceu, Mark Twain desesperou-se: “Logo agora que mais preciso começo a esquecer o sobrenome de Jesus”.

Saber viver é importante. Saber envelhecer é fundamental.

Todas as experiências foram gratificantes, tenham sido pessoais ou coletivas.

Uma das coisas que mais me tocam é quando algum desconhecido íntimo me reconhece e diz “Olá, é disso que o povo gosta !”.

Sinceramente só isso faz valer a pena ter vivido, feito tudo o que foi possível para transmitir um pouco de alegria e satisfação ao ouvinte, ao leitor e ao anônimo que conviveu no mesmo tempo, na mesma época e com os mesmos sentimentos.

Ah, esqueci de falar de futebol, o tema deste espaço.

É o erro de fazer 70 anos. Amém.

 

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