Bem antes de se tornar um dos maiores narradores do rádio esportivo paranaense, Antônio Carlos Carneiro Neto já traçava os passos que seguiria para realizar seu sonho de criança.

Recém-chegado a Curitiba, foi contratado pela Rádio Guairacá em 1965. Primeiro como plantão esportivo, depois como repórter de campo – função que exerceu por seis anos ao todo. O grande objetivo, no entanto, era poder descrever detalhadamente tudo aquilo que acontecia no campo, contar uma história, tal qual fazia quando jogava futebol de botão em Wenceslau Braz, sua cidade natal, no Norte do estado. Por isso, não pensou duas vezes quando apareceu a oportunidade de fazer jornada dupla nos estádios.

“Eu treinava nos jogos preliminares, dos aspirantes, dos juvenis. E depois ia ser repórter no principal”, recorda Carneiro, que aos 71 anos está prestes a lançar o sétimo livro com a temática do futebol.

A obra de 329 páginas ganhou como título o seu grande bordão da época da latinha: “É disso que o povo gosta!” – uma mistura de autobiografia e coletânea de colunas publicadas nos mais de 50 anos de profissão.

Quando a narração virou realidade na vida de Carneiro, a escrita já era uma paixão consolidada pelo futuro dono da cadeira 40 da Academia Paranaense de Letras. Na infância, a máquina de escrever Hamilton utilizada durante o dia pelo pai, juiz de direito em Guarapuava, era seu passatempo todas as noites.

“Eu colocava um papel e escrevia como se fosse um jornal, fazia jornal para o colégio, Jogos da Primavera, essas coisas. Aprendi datilografia e falava igual a um papagaio”.

Ainda adolescente, quando se mudou para Ponta Grossa, começou a publicar a coluna ‘Chuteiradas’ no Jornal da Manhã. Simultaneamente, passou em um teste para plantão de esportes na Rádio Clube Pontagrossense.

“Com 15 anos, quase 16, eu já era o plantão da principal emissora da cidade e também escrevia uma coluna no jornal sob o pseudônimo Juca Neto, nem me lembro do motivo. Foi o primeiro ano da minha carreira, vamos dizer”, afirma.

O mundo pelo rádio

Nos anos 70 e 80, época na qual o rádio era o principal veículo de comunicação, o futebol proporcionou incontáveis viagens pelo Brasil e pelo mundo ao narrador. Além de duelos memoráveis pelo Campeonato Brasileiro, não faltam histórias de confrontos da Copa Libertadores, Copa do Mundo e Mundial de Clubes.

Viagens à Europa para irradiar futebol eram comuns, no mínimo duas por ano. “A emoção de você estar transmitindo de Londres, de Roma, de Munique, de Tóquio... No Santiago Bernabéu, o santuário do Real Madrid, você entra lá e a perna dá uma tremidinha. Tudo isso faz parte, mas a gente vai levando”, diz Carneiro, que tem mais de sete passaportes completos graças ao alcance das ondas radiofônicas.

“O rádio era absoluto, reinava. A televisão simplesmente não fazia transmissão. Quando a Rede Globo começou a passar os jogos, normalmente era só domingo à tarde. Só que os times do Paraná nunca passavam na TV, claro. Mas a rádio tinha que estar lá. Jogava o Athletico de um lado, o Coritiba do outro, depois surgiram o Colorado, o Pinheiros. O rádio tinha um dinamismo absurdo”.

'Foi um privilégio ter estado com vocês'

Os mais jovens devem conhecer Carneiro Neto pelas colunas e comentários em áudio na Gazeta do Povo. Quem o ouviu narrar sabe como foi diferenciado ao transmitir emoção para o ouvinte. Com classe, cultura enciclopédica, astúcia e toques de ironia.

“Para narrar um jogo você tem que contar uma história”, ensina, comparando a partida a um capítulo isolado de uma novela, que coletivamente forma o campeonato.

“Eu nunca repetia o desenlace de uma jogada, de um gol, principalmente. Eu narrava o gol, contava os detalhes técnicos e falava mais alguma coisinha. Isso me distinguia dos outros narradores”.

O bordão – marca que todo narrador que se preze precisa ter – veio naturalmente. O ano era 1971, e Carneiro, então na Rádio Clube Paranaense, simplesmente descreveu a emoção que percebeu durante um jogo do Coritiba, no Couto Pereira.

“Quando saiu o gol, dei o grito e a torcida se levantou da arquibancada do Alto da Glória. Quando vi aquela massa eu continuei ‘é disso que o povo gosta!’. É o povo, 40 mil pessoas no estádio. E aquilo pegou, todo mundo gostou. Falaram para eu continuar usando. E eu continuei”, relata o jornalista, que encerrava as jornadas com outra marca registrada: ‘foi um privilegio ter estado com vocês’.

Os títulos brasileiros de Coritiba (1985) e Athletico (2001) foram os momentos mais importantes, revela Carneiro. “Como narrador, no jogo do Coritiba contra o Bangu no Maracanã, foi emocionante ver um time do nosso estado ser campeão. E já como comentarista, na Rádio Banda B, foi a vez do Athletico. Não só a decisão em São Caetano, mas toda a sequência das finais, com o Alex Mineiro marcando oito gols em quatro partidas”, aponta.

Plantão, repórter, narrador, comentarista, chefe de equipe, escritor, diretor de vários prefixos... O nome Carneiro Neto se mistura com o próprio o jogo. “Futebol sempre foi minha grande paixão. Futebol, rádio, jornal. Está na minha veia, no meu DNA”.

Serviço:

Lançamento do livro ‘É disso que o povo gosta!’, com sessão de autógrafos e bate-papo.
Data: 29/10, às 18 horas.
Local: Livrarias Curitiba – ParkShopping Barigüi, em Curitiba.

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