Quando assisto as peripécias de Neymar, Gabriel Jesus, Fernandinho, Marcelo, Paulinho, Casemiro e outros que se destacam nos principais times europeus, pergunto-me o motivo da atual estranha escassez de revelações no futebol brasileiro.

Sim, estranha, pois se não temos capacidade ou política pública para transformarmos a vocação latente de significativa parte dos 210 milhões de brasileiros em uma potencia olímpica, poderíamos, pelo menos, continuar sendo uma reconhecida potencia futebolística.

Os fracassos da seleção nas últimas Copas e a insuficiência técnica dos times brasileiros que disputaram os recentes Mundiais de clubes denunciam que alguma coisa está errada no reino da bola em nosso país.

A crônica esportiva fala, todo dia, da entressafra de jogadores, mas limita-se a registrá-la na Copa São Paulo de Juniores ou nos campeonatos das diversas categorias de base. Mas ninguém investiga as causas, os motivos e as razões de a maioria dos times da série A e B do Campeonato Brasileiro apresentar, anualmente, quantidade tão insignificante de bons novos jogadores.

Claro que muito tem a ver com o despreparo dos treinadores e da maioria das pessoas que cuidam dos candidatos a jogadores nas divisões de formação.

O professor da escolinha, se é que se pode chamá-lo assim, obriga os garotos a marcarem forte, a focarem na pegada, na ocupação de espaços, enfim a prática de um estilo de jogo que contraria a tendência inata dos jogadores brasileiros.

Com essas escolinhas – e com essa mentalidade que vem de cima, vem dos técnicos das divisões principais – , não é admirar que o futebol do país tenha tantos jogadores fortes na marcação, mas medíocres na criação e inventividade.

Raríssimos são os novos Gerson, Dirceu Lopes, Ademir da Guia, Rivellino, Falcão, Cerezzo, Rivaldo, Kaká, Ricardinho, Alex, Juninho Pernambucano ou goleadores como Pelé, Tostão, Reinaldo, Careca, Zico, Romário, Bebeto, Ronaldinho Gaucho e Ronaldo.

As escolinhas de futebol em clubes e colégios do Brasil são, já há muito tempo, verdadeiras fábricas de pernas-de-pau.

Existe uma entressafra de jogadores e existe uma entressafra de técnicos – aquela por causa desta.

Ao contrário da história do ovo e da galinha, é fácil constatar que e a entressafra de técnicos veio primeiro. Hoje, o futebol brasileiro é o reflexo nítido e irretocável da mentalidade dominante entre os “professores”.

Mas existe outra questão que deveria chamar a atenção da reportagem investigativa dos veículos que se debruçam sobre o futebol.

Trata-se do desaparecimento, sim a palavra apropriada é desaparecimento, de grande quantidade de jogadores jovens nos centros de treinamentos. Ninguém jamais ouviu falar deles, mas com 14, 15 ou 16 anos de idade, logo ao emitirem os primeiros sinais de que possuem potencial para jogar bola, são negociados para o exterior.

Parece existir um amplo esquema de retirar do país novos talentos sem que eles tenham a oportunidade de jogar nos times principais.

De repente, surge alguém em algum canto do planeta como destaque e, daí, se descobre que a revelação é brasileira.

Tudo é muito nebuloso, com o essencial oculto, muito vasto para as poucas informações que vazam para o nosso entendimento do fenômeno.

Prestem atenção porque, de repente, algo das profundezas emerge e então ficamos atônitos com o aparecimento de alguém que nunca jogou em nossos times, jamais se destacou em nossos gramados e está há anos no mercado internacional.

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