Aquela bolinha alegremente chutada pelas crianças que se apaixonam pela brincadeira até a idade adulta perdeu a inocência. Não para as pessoas comuns, é claro. Apesar da drástica redução da prática por falta de espaços nas grandes cidades.

Os terrenos vazios, ou baldios, proporcionavam os inúmeros campinhos da nossa infância. Da mesma forma que os mais velhos se dedicavam ardorosamente as chamadas “peladas” aos sábados à tarde ou aos domingos pela manhã.

Hoje em dia o futebol amador resume-se aos clubes sociais que ainda possuem campos disponíveis ou espaços privados em chácaras e condomínios.

Até o divertido futebol de rua acabou. Todas as vias, em todos os bairros, foram invadidas por automóveis e outros veículos.

Proliferam as escolinhas patrocinadas por clubes profissionais na incessante tentativa de descobrir novos pelés, zicos, romários, ronaldinhos e outros ídolos inesquecíveis.

O futebol profissional também mudou. E, lamentavelmente, para pior.

Se no passado os dirigentes eram amadores que comandavam os times com o coração, não raras vezes tirando dinheiro do próprio bolso para completar o custeio, hoje em dia observa-se intensa movimentação de raposas felpudas em todos os escalões futebolísticos.

Além das negociações milionárias de craques envolvendo somas extraordinárias para a economia de qualquer país, surgem jogadores que nem bem são revelados nos centros de treinamentos e vão para o exterior.

Ali proliferam empresários, intermediários, procuradores, laranjas de dirigentes e outros tipos que surgiram na “nouvelle vague” da bola.

E tem muito mais: o faturamento junto aos patrocinadores que dão nome as modernas arenas; anúncios nos uniformes ou ao redor do campo de jogo; arrecadação com associados; shows de toda sorte e a exploração comercial nas áreas de alimentação, lojas, etc.

Mas o filé mignon mesmo é a verba oferecida pela televisão. A magia do som com imagem virou o jogo para sempre. O futebol faz tudo por dinheiro.

Os membros das comissões-técnicas reclamam do excesso de partidas a cada ano, mas se submetem aos desígnios dos cartolas. Estes, preocupados apenas com o faturamento e não mais com a qualidade do espetáculo, engendram torneios paralelos que recheiam os calendários anuais. Por isso, cada clube tem de formar elencos com cerca de 40 jogadores, reduzindo, obviamente, o padrão técnico das equipes.

Os profissionais se esforçam para manter níveis razoáveis de competição. Poucos conseguem. Quando a chapa esquenta, o técnico pula fora e aceita propostas internacionais. China, Arábia Saudita, Golfo Persa e Japão representam o paraíso econômico para todos os treinadores brasileiros bem sucedidos.

Nem o atual campeão nacional, Fábio Carille, parece resistir ao canto da sereia. Admitiu trocar o Corinthians por um bom contrato na Arábia Saudita.

E ele não está errado. Mesmo vencendo tudo o que disputou nas últimas temporadas tem sido cobrado por alguns torcedores apaixonados que ainda não entenderam a nova engrenagem do negócio chamado futebol.

Tudo estoura no técnico quando na realidade foram os cartolas que provocaram as mudanças que determinaram a queda do padrão de jogo nos últimos anos.

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