Com a morte de Jô Soares, apagou-se o último facho de luz do humorismo brasileiro. De uma linhagem culta, intelectual e inteligente, exclusiva a ele e a Chico Anísio, ficaram os personagens que iria buscar da vida cotidiana.

Jô Soares foi embora, mas não ficamos carentes. Do seu espólio de personagens para nós, que amamos o futebol, deixou-nos o único e verdadeiramente imortal: o Zé da Galera. É aquele que, com jeito desconfiado, bigodinho raso, palito dançando entre os dentes, encosta-se no orelhão e fica atazanando o treinador Telê Santana, com o bordão: “Bota ponta, Telê” (Seleção de 1982).

O Zé da Galera compreendia a razão pela qual Telê não escalava um ponta direita nato no Brasil de 1982. Era uma época que o futebol total criado pela Holanda de Cruyff já exercia influência definitiva na ordem tática. Por exigir ocupação de espaços pela troca de funções e independente do número da camisa, extinguiu algumas posições.

Mas para quem teve Garrincha, Julinho Botelho e Jairzinho, o Zé da Galera não se conformava com o Brasil sem um número sete pregado no lado direito, driblando e fazendo do lateral contrário um “João”. O Zé da Galera não se confortava nem mesmo que por aquele lado revezavam-se Falcão, Leandro, Sócrates e Zico, de onde nasceu o futebol mais belo jogado em uma Copa do Mundo.

O Zé da Galera por ser atemporal é o personagem eterno de Jô Soares e que existe em todos nós. Não haverá tempo e não haverá época capaz de nos tirá-lo. Todos nós que temos um time de coração um dia ou outro acabamos ou acabaremos sendo um Zé da Galera.

Bem por isso, os atleticanos, com o seu “orelhão” eletrônico, estão a gritar na cidade: “Tire o Pablo e bote o Vitor Roque, Felipão.

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