Em “Segredo dos meus olhos”, o notável ator argentino Ricardo Darín faz papel do agente judiciário Benjamin Espósito, que investiga um assassinato. Em um bar, consegue uma pista: o o suposto assassino Isidoro Gomes, quando criança, era torcedor do Racing Club de Avellaneda. Benjamin lembrou do pensamento do genial uruguaio Eduardo Galeano: “Um homem pode mudar de mulher, de partido político ou de religião, mas não de time de futebol”. Naquela noite, o Racing jogava com o Huracán. Lá estava Isidoro Gomes.

A trama é ambientada na época em que o amor por um time de futebol era um sentimento dirigido, quase imposto, de pai para filho. Já há algum tempo, essa regra começou a sofrer exceções. O time que ganha o coração da criança, às vezes, é aquele que provoca condições de influenciar o sentimento em um dado momento da história.

Entre nós, não é raro encontrar filhos de atleticanos e coxas que torcem para o Paraná, que nasceu como “o clube do ano 2.000”. Com um estádio em cada canto da cidade, com  40 mil sócios pagantes, com seus grandes times e ídolos (Régis, Saulo e Adoílson), os grandes técnicos (Minelli, Otacílio e Geninho), as grandes conquistas estaduais e nacionais (no Brasileirão, foi num tiro só da Série C para a A). O Tricolor chegava a tripudiar dos fracassos intermitentes de Athletico e Coritiba.

O Athletico não triplicou a sua torcida só porque fez a Baixada para a Copa. O fato mais relevante para isso foram as condições criadas de 1995 a 2001 por uma reação de ideal, de impacto, jamais vista na história do futebol brasileiro.

Nesse período, movido pela genial criação de Nelsinho Fanaya, “Atlético, Paixão eterna”, voltou a ser campeão estadual, mandou a sua camisa para o cofre do New York Times para ser aberta no ano 3.000, derrubou a velha Baixada, construiu a primeira Arena, foi para a Libertadores, foi campeão do Brasil, teve as tranças e os gols de Oséas, Paulo Rink, as defesas de Ricardo Pinto, teve Leão, Evaristo de Macedo e Geninho no comando, e Kleberson no Brasil campeão do Mundo de 2002. O Furacão era como as flores de Geraldo Vandré: nas escolas, nas ruas, campos e construções, virou o time da moda.

Na Série D, caso confirme a queda que parece questão tempo, o Paraná terá que se submeter a uma vida de pobreza, de resignação com a ameaça do próprio fim. Os filhos que irão nascer dos paranistas terão que seguir um outro caminho: o da Baixada ou do Couto Pereira, serão Athletico ou Coritiba.

Participe da conversa!
0