A última vez que conversei com Borba Filho, ele confessou o sonho impossível de viajar no tempo para alcançar as épocas anteriores da sua vida. Borba imaginava que em vários momentos do passado teria se beneficiado de algo que sabia agora. Vivendo intensamente um dado momento da sua vida, compreendi esse seu sonho. Talvez seja o sonho impossível de todos nós esse de fazer uma visita ao passado, levando as lições que aprendemos na execução da vida.

Por ter esgotado o seu ciclo natural de vida, Borba Filho morreu e foi embora. Para os amigos, deixou um vácuo que já está sendo ocupado por lembranças e por belas histórias. Uma bela história não é necessariamente uma história alegre.

No tempo em que viveu, há dúvida se existia alguém que entendesse futebol igual a Borba.   Mas, há certeza que não havia ninguém que entendesse mais de futebol do que Borba.

Como jornalista, radialista, treinador e descobridor de jogadores, era insuperável. Escrevia, falava e observava com perfeição de um negócio que parecia ser exclusivo seu: o futebol como ciência e como esporte.

Escreveu certa vez o escritor malinês Amadou Hampâté Bâ, citado pelo cineasta Walter Salles, em uma crônica sobre o psicanalista Contador Calligaris, morto na terça passada (Folha de São Paulo, 4/4/2021): “Quando certas pessoas morrem, é como uma biblioteca que pega fogo”.

É o caso de Borba. Mas por não ter uma alma egoísta, é possível que tenha deixado a salvo um livro para continuarmos aprendendo sobre futebol.

À família de Borba, a minha solidariedade.

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