Os imortais também, morrem. Mas, há aqueles que começam a morrer um dia, bem cedo, e vão morrendo todos os dias, até chegar o dia final. Maradona teve sua morte ontem, mas, começou a morrer desde o dia que uma bola de futebol foi ter com a sua perna esquerda.

A nobreza da narração de Jorge Valdano, um dos seus “apóstolos”, do segundo gol contra a Inglaterra, no Mundial do México, mostra que os argentinos lhe tratavam como um ser superior e o vestiam de deus.

A crônica de Valdano, no El Pais, começa assim: “Houve um dia no México em que um homem se tornou um deus de proporções humanas e eu estava lá. Como apóstolo”.

Desde que chutou a primeira bola, Maradona recebeu uma identidade de divino. Consagrado, imaginou que vestido de deus, poderia ter um mundo só seu, em que fosse possível conciliar a sua arte jogando futebol com os excessos que o tornaram dependente de drogas e álcool.

E brincando de viver, como lembra o jornalista argentino Andres Burgo (El Pais), em 1997, quando conseguiu sobreviver a uma grave crise, querendo ser íntimo de Deus, ironizou a morte:

“É evidente que tenho uma linha direta com o Barba. Deixe-me viver minha vida, não quero ser exemplo. Eu também não encontraria paz na morte. Eles me usam na vida e vão encontrar uma maneira de fazer isso enquanto eu estiver morto”.

Quando deixou de jogar bola, os dias da linha do tempo passaram a ser mais curtos. Era o anúncio de que o último dia, que foi ontem, estava para chegar.

Dentro da sua proposta de vida, Maradona teve uma morte feliz. Só não jogou mais do que Pelé, foi rei no seu tempo, praticou todos os excessos que o seu mundo de inconsciência permitia e continuou vestido, e, agora, será sepultado como um deus.

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