A imagem do jogo que serve de referência para conclusões de que ocorreu injúria racial é absolutamente clara: Ramirez, do Bahia, quando passa por Gerson, não altera o ritmo de sua corrida e sequer olha para o craque do Flamengo. Passa e continua correndo. Daí, segue-se a reação imediata e enérgica de Gerson junto ao arbitro, acusando ser vítima de injúria racial.

Em sua manifestação, Ramirez, bem em mais do que se limitar a negar a suposta ofensa, com uma narrativa que flui natural, enquadra fatos sequenciais, adotando uma linha afirmativa sem lacunas, para concluir que não praticou a ofensa.

Já escrevi que na injúria racial em geral, mas, contra o negro, em especial, a exteriorização do sentimento do ofendido deve ser recepcionada como verdade. Sendo um crime por ofensa moral, o sujeito ofendido é que cria sua própria lei, como ensina o filósofo alemão Immanuel Kant, em sua “Crítica da Razão Pura”.

Ocorre que, no caso específico de Gerson, essa presunção de que ocorreu a ofensa não pode ser afirmada como fato supremo. Ao contrário de outros casos de injúria racial no futebol, em que o ofensor não negou a ofensa, aqui há um conflito sem meio termo, entre a afirmação da injúria e o da sua negativa.

A conclusão quase unânime da mídia, que ocorreu injúria racial tendo como referência apenas a reação de Gerson, é precipitada. No caso específico, há que se considerar, obrigatoriamente, outras circunstâncias. A negativa fundamentada de Ramirez deve ser considerada por que nessa espécie de ilícito, quando há dúvida, a intenção, também,  entra como um elemento de avaliação; a tensão que ambientou esse jogo entre Flamengo 4x3 Bahia, em especial, a disputa no meio entre Gerson e Ramirez;  a ausência de testemunhas inequívocas do fato, prova pela absoluta e, por isso, surpreendente falta de solidariedade pública dos jogadores do Flamengo a Gerson.

De tudo que li e ouvi,  me sobrou só a posição do excepcional Marcelo Barreto, do Redação Sportv, que bem resumida, é a de ser possível que se falou uma coisa (Ramirez) e se ouviu e sentiu outra (Gerson).  E Ramirez, fato a ser considerado, é colombiano e ainda não aprendeu português.

O caso Gerson não é tão simples como o jornalismo populista vem concluindo.

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