A miséria que provocou o incêndio do Museu Nacional é a mesma da memória do futebol no Brasil. Com raras exceções, e as devidas proporções, o passado do país mais glorioso do mundo com a bola nos pés sobrevive à míngua. Sem apoio, sem interesse, quase sem nada.

O clássico caso do roubo da taça Jules Rimet, em 83, de forma rocambolesca da sede da CBF, no centro do Rio de Janeiro, e jamais reencontrada, resume tudo. Não conseguimos cuidar nem mesmo da maior glória da nossa seleção, troféu conquistado em definitivo com o tri da Copa do Mundo.

De uma forma geral, os clubes não zelam e, muito menos, valorizam a própria história. Negligência que se explica pelas péssimas gestões. Afundada em dívidas, a maioria das equipes está mais preocupada com os resultados de campo. E, normalmente, os torcedores também.

Assim, são poucas as iniciativas de se preservar as histórias, artigos importantes, locais relevantes, enfim, tudo que envolve um esporte riquíssimo em cultura. Geralmente, é aquela sala que sobrou no estádio e que fica sob responsabilidade de algum abnegado. Dinheiro há, mas não pra isso.

Entre os times de Curitiba, o Coritiba é quem dá mais valor ao passado. Construiu um memorial no Couto Pereira que, entretanto, acabou desalojado pelas obras do novo setor, batizado Pro Tork. O acervo, de porte, está guardado para ser novamente exposto.

O Paraná, por sua vez, mantinha um memorial na Kennedy que, em 2015, acabou encaixotado e levado para o Boqueirão. Por último, taças históricas do Tricolor estão sendo exibidas, de forma modesta, na boutique do clube. O resto do material segue empacotado.

O Atlético, por fim, entre tantas promessas grandiosas nas reformas da Baixada, não disponibiliza nada da sua história aos rubro-negros. O clube exibe apenas as suas taças no CT do Caju, de visitação restrita aos sócios convidados.

O caso mais grave, no entanto, diz respeito ao museu do futebol paranaense que foi montado no Estádio Pinheirão ainda sob administração de Onaireves Moura na Federação Paranaense de Futebol (FPF). O espaço foi lacrado junto com o estádio, em 2007, e desde então ninguém sabe direito qual o destino.

Em 2013 visitei as instalações do Pinheirão e o museu, com uma série de artigos doados por personagens importantes do esporte do Paraná, estava trancado e relegado ao abandono como toda a praça esportiva, então território de pombas e ratos.

São algumas amostras entre tantas relacionadas ao futebol no Brasil. Basta ver que o Maracanã foi praticamente destruído, ao custo de mais de um bilhão de reais, para a Copa do Mundo de 2014. O maior patrimônio do esporte nacional acabou completamente desfigurado, virou uma arena qualquer.

Flamengo e Corinthians, os dois times mais populares do país, e entre os mais vencedores, não têm um museu à altura. Contraste com os dois maiores da Argentina, Boca Juniors e River Plate, ambos com memoriais de alto nível que são pontos de visitação obrigatória em Buenos Aires.

Há apenas uma exceção no Brasil em meio ao cenário desolador: o Museu do Futebol, em São Paulo. Inaugurado em 2008, no Pacaembu, nasceu de um consórcio entre a prefeitura da cidade e o governo do estado. Moderno, mesmo 10 anos depois, faz jus ao passado do futebol nacional.

Mais recentemente, em 2014, a Confederação Brasileira de Futebol abriu o Museu de Seleção Brasileira, na longínqua Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. Trata-se mais de uma reparação histórica e, ainda, obrigação de uma entidade que fatura alto e, mesmo assim, convive com a corrupção.

É pouco, quase nada.

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