O cara recebe uma grana extra, ou uma ajuda de um parente camarada e milionário, e imediatamente pensa em construir uma piscina. Nos planos mais puros, a chance de reunir a família, fazer a festa das crianças, criar um ambiente novo e de pura alegria no seio do lar.

Entretanto, rapidamente, o sonho de lazer vira pesadelo. O dono da piscina acaba impondo uma série de restrições aos frequentadores, inclusive aos filhos. Não pode convidar amigos, não dá para fazer churrasco e só é permitido o uso de sunga roxa. E, pra piorar, o acerto do pagamento ainda dá confusão.

O cenário imaginado acima pode descrever, com alguma fidelidade, a situação da Baixada. Aberta para a presença da torcida do Atlético há pouco mais de quatro anos, para o jogo com o América-RN, pela Copa do Brasil, dia 3/9, o Joaquim Américo pós-Copa seria a “piscina dos sonhos” dos rubro-negros.

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Após décadas, desde quando deixou seu velho campo em 85, rumo ao Pinheirão, o clube teria uma praça esportiva pronta, moderna, consolidada, sem mais necessidade de obras, sem migrações voluntárias ou compulsórias para a Vila, Couto, Janguito. Bastava vestir o calção e pular de ponta.

Não foi o que se viu nos quatro anos que se seguiram. Sim, já se foram quatro anos, outra Copa foi disputada, na Rússia, e o Furacão não saiu do lugar em termos de participação do torcedor. Pior, retrocedeu e, em 2018, o ambiente na Arena piorou e a presença de público no Brasileiro despencou.

Na atual temporada, a média de público do Rubro-Negro é de 11.203 pessoas por jogo, em 11 partidas como mandante no Nacional. Ano passado foi de 13.732 torcedores em 19 partidas na disputa. Em 2016 foi ainda maior, de 15.751 em 19 compromissos. E, em 2015, de 16.430

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Exceto pelo ano da abertura, 2014, com média de 12.409 torcedores, em somente nove jogos no Joaquim Américo pelo Nacional, o clube só fez perder público em seu renovado estádio, apelidado de Catedral pelo atual presidente do Conselho Deliberativo do clube, Mario Celso Petraglia.

Calculando a média do período todo, e considerando apenas o Brasileirão, o campeonato que atrai mais interesse, o número alcança 13.905 pessoas. Para um estádio que comporta 43 mil lugares, significa que a Arena enche somente 32%, menos de um terço.

Nem o recorde de público de sua própria casa o Furacão ostenta. É do Paraná Clube o jogo com maior presença nos quatro anos de Arena: 39.414 torcedores contra o Inter, ano passado, pela Série B. Do Atlético é de 38.020 diante do Flamengo, pela Série A em 2016.

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São números que escancaram o fracasso absoluto da política de relacionamento do Furacão com seu torcedor. Ao invés de fazer crescer, o clube conseguiu a façanha de diminuir a participação popular dos atleticanos. Um feito e tanto.

Os motivos são vários e óbvios. O primeiro deles, a biometria. Recurso de segurança interessante, mas que, como é costume no Atlético, foi empurrado goela abaixo dos torcedores. Como resultado, uma fuga de sócios que beira 10 mil pessoas.

Mas vai bem além. Entram na conta os valores caros de ingressos e associações que, com o tempo, foram afugentando o público. Considerando ainda as diversas dificuldades impostas para quem quer ir ao jogo, como a indisponibilidade de ingressos no horário das partidas.

Pesa também a infinidade de regras para frequentar o campo. Recentemente, o Furacão lançou um informativo para quem fosse o jogo que parecia um manual de instrução de foguete espacial, de tão complexo. Não pode isso, só pode aquilo, tal setor é assim, tal setor é assado…

A péssima relação do clube com sua torcida organizada também engrossa o pacote, aqui apresentado em sua versão básica, dos problemas que afastam o atleticano de seu campo. Há, sem dúvida, a necessidade de se relacionar com a Os Fanáticos ou qualquer que seja a organização.

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Diversas ressalvas podem, e devem, ser feitas com relação ao comportamento dos torcedores organizados, com ênfase na prevenção da violência. Mas a facção é, sim, o coração do estádio, e é preciso um entendimento que satisfaça a todos, especialmente à coletividade rubro-negra.

Comunhão que, em tese, não deveria ser problema para a atual diretoria do Atlético. Afinal, clube e a Os Fanáticos foram parceiros nas duas últimas eleições na Baixada. Basta deixar de lado os problemas atuais e relembrar os tempos de amizade.

Por fim, a bizarra medida da “torcida única” junto com o Ministério Público do Paraná (MP-PR) só fez mesmo minguar a presença dos visitantes, forçados a ir ao jogo sem identificação, misturados aos donos da casa. Os problemas de segurança nos estádios, que já eram irrisórios, continuam na mesma.

Menos mal, a diretoria atleticana parece, eu disse, parece, estar tentando minimizar os efeitos do “programa” de afastamento de seu torcedor, engendrado nos últimos anos, com sucesso, diga-se. Flexibilizou e diminuiu os valores para associação e facilitou a compra de ingressos.

Por outro lado, se vê uma ansiedade, desmedida, em recuperar tanto tempo jogado no lixo. É muito cedo ainda. Será necessário alguma espera (um ano? Mais?), e um pacote mais robusto de medidas populares, para recuperar a proximidade e confiança dos atleticanos.

E aí, quem sabe, será o momento de aproveitar essa “piscina” por tantos anos esperada e, até então, subutilizada. Sem pulo de ponta, sem churrasco, sem alegria alguma. A não ser que você goste de usar a sunga da diretoria do Atlético.

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