Felizmente, não houve qualquer incidente grave entre torcedores de Atlético e Flamengo, no domingo, na Arena, jogo disputado com “torcida única”, ou melhor, “torcida mista”. Havia uma preocupação geral, até mesmo da Polícia Civil, mas, ainda bem, nada aconteceu.

A partida, evidentemente, ajudou. Praticamente, não houve tensão. Em pouco mais de 20 minutos, o Rubro-Negro paranaense acabou com o jogo, 3 a 0. Um gol do Flamengo de abertura do placar, ou um duelo renhido, poderiam detonar alguma confusão com as torcidas misturadas.

LEIA MAIS: Petraglia ou John Lennon? Quem compôs a carta aberta do Atlético sobre torcida única?

Não é ser alarmista, nem “torcer” para estar certo. Basta encarar a realidade. Entender como funcionam as arquibancadas, qual é a realidade do país, como o esporte mexe com as pessoas, o que se chama de “comportamento de manada” e, pronto, alertar para o risco.

Temor que foi revelado, inclusive, pela Polícia Civil do Paraná. Acostumado ao cenário do futebol, foi o delegado Clóvis Galvão, da Delegacia Móvel de Atendimento ao Futebol e Eventos da Polícia Civil do Paraná (Demafe), quem levantou a preocupação com o embate.

E, não por acaso, os flamenguistas foram se alojando aos poucos no setor Coronel Dulcídio superior, o espaço que era normalmente dos visitantes na Baixada. Os forasteiros contaram ainda com uma “supervisão” da Polícia Militar em algum momento (foto abaixo).

Reprodução internet

Sem contar que o sistema de torcida única, o bebê de Rosemary do Ministério Público do Paraná (MP-PR), adotado pelo Atlético e rejeitado por Coritiba e Paraná, já teve incidentes. No jogo com o Internacional, na Arena, um grupo de colorados teve de ser separado dos atleticanos. Logo…

Entre sãos e salvos, quem levou a pior, mais uma vez, foi a cultura do futebol. Não houve o tradicional grito de “meeeeengo” da torcida do Flamengo onde quer que vá. Os visitantes ficaram diluídos e, por outro lado, o sarro da torcida atleticana com a vitória relâmpago não os acertou em cheio.

O que se quer é só o normal. Só o cenário comum do futebol desde que os torcedores deixaram de ir ao estádio de cartola e fraque. Só a cultura do esporte mais adorado do planeta. Só o que acontece em todas as praças esportivas ao redor do mundo. Nada de diferente.

LEIA MAIS: Depois da “torcida única”, MP-PR e Atlético poderiam criar a “praia seca”

No já célebre e pitoresco texto “Torcida humana”, publicado no site oficial do Atlético, o clube tenta empurrar que está sendo revolucionário e, de forma um tanto confusa, diz que também não está fazendo nada de novo. Mais do que uma contradição, trata-se de uma inverdade.

O que já ocorreu, sim, foi a quase inexistência de divisão entre torcidas. Como você pode ver, aliás, na foto abaixo de um Atletiba, sim, um clássico, dos anos 70. Agora, essa “mistura” de torcidas proposta pelo MP-PR e o Furacão propõe jamais ocorreu no futebol moderno.

Duelo, confronto, no grito, na festa, nas alegorias mais bonitas, que é justamente a essência do futebol. O futebol é o que é porque o embate se dá muito mais do que no campo, mas igualmente no concreto armado, entre os torcedores, que são tão protagonistas quanto os atletas.

LEIA MAIS: Manual de comportamento para torcida do Flamengo na Arena do Atlético

Naturalmente, torcedores do mesmo time juntos, reunidos no mesmo setor, irmanados numa só voz. Com seu cânticos e bandeiras. Como é na Europa, o continente do futebol mais desenvolvido. Como é até na Copa do Mundo, a competição das “torcidas familiares”.

E é “só isso” que o Furacão, em parceria com o poder público, quer acabar. E ainda posar de “humano” e “democrático”, quando, na verdade, toma medida autoritária e irresponsável. Ora, o clube proíbe tudo para as torcidas adversárias! Que igualdade é essa?

O Furacão ainda “argumenta” como se a vontade do torcedor é ter a oportunidade de sair na porrada com os visitantes, de “dividir para conquistar” o terreno inimigo. A estratégia do clube é comum nos dias atuais, de confundir, de atacar alvos imaginários para inviabilizar qualquer debate.

LEIA MAIS: A imagem do paranista sozinho contra o Vasco é um golpe na “torcida única”

O que o Atlético pretende, mesmo, é empurrar a sua própria cultura. Que é, basicamente, de tratar o esporte como mero entretimento, como ir ao shopping ver mais uma das tantas sequências de filmes de super herói. Um programa de tanta relevância quanto tomar um sorvete.

Mario Celso Petraglia, presidente do Conselho Deliberativo do Furacão, já deixou isso claro em diversas entrevistas. O desejo do cartolão é que é os torcedores sentem para se divertir por uma hora e meia, não liguem para o placar, e consumam o máximo de fast food e refrigerante possível.

LEIA MAIS: Petraglia quer acabar com a paixão no futebol, e está conseguindo no Atlético

Em casa o dirigente já está conseguindo. Outrora o estádio mais temido do país, a Baixada põe hoje medo nos adversários tanto quanto o Amway Center, do Orlando Magic, na NBA na terra da Disney. E o plano da diretoria é justamente esse: transformar um terreno histórico numa arena boboca.

Obviamente, pode até funcionar e sepultar o vibrante Joaquim Américo. Petraglia age como dono do Atlético, e faz o que quer, mesmo que não seja da vontade dos atleticanos. Mas, de uma forma geral, o plano do clube do MP-PR não tem força para prosperar.

Participe da conversa!
0