Se estivesse vivo, o Maracanã faria 70 anos nesta terça-feira, 16 de junho, data da inauguração. Não está. O Maracanã está morto. Foi sacrificado para o Mundial de 2014, disputado no Brasil. O icônico gigante de concreto armado jaz, oficialmente, há seis anos.

Reformado para o Pan-Americano de 2007, ao custo de mais de R$ 300 milhões, à época, o Mário Filho gozava de excelentes condições. Alguns ajustes e, voilá, estaria tinindo e trincando para sediar partidas de Copa pela segunda vez em sua gloriosa história.

Mas, claro, o desembarque das caravelas da Fifa no país impôs urgências mais fundamentais do que preservar a arquitetura do mais famoso estádio do planeta Terra. E assim se fez: o velho Maraca, hoje, é apenas lembrança.

Era primordial jorrar cascatas de milhões de reais em corrupção. Ao menos R$ 200 milhões em superfaturamento, de acordo com o Tribunal de Contas do Rio de Janeiro. E a praça esportiva bem que poderia ter sido rebatizada de Cabralzão.

Havia, ainda, as incontornáveis exigências do caderno de encargos da Fifa. Sob o pretexto de segurança -- como, por exemplo, elevador exclusivo para autoridades -- uma série de reformas meramente cosméticas que, ao apito final de Alemanha e Argentina, tornaram-se acessórias.

Ora, era evidente que seria assim e se você não desconfiava, bem, melhor deixar quieto. Governo e futebol brasileiro sempre foram notórios desperdiçadores de dinheiro, para usar uma expressão mais leve. Sempre a grana dos outros, é claro.

E a Fifa é aquela entidade dos cartolas que estão presos ou são procurados ou suspeitos de alguma sacanagem, mumunha, mutreta, levação. Poderia citar aqui 20 nomes, a começar pelo secretário-geral da entidade em 2014, Jérôme Valcke.

Com a união das duas frentes, então, formou-se verdadeira pororoca de desvios de dinheiro, o Woodstock dos gastos absolutamente desnecessários, Carnaval da construção de estádios sem justificativa, como os de Manaus, Cuiabá, Natal e Brasília.

E, assim, está morto o Maracanã de Ghiggia, Garrincha, Zico, Pelé, tantos craques e pernas-de-pau imortalizados pelo Maior do Mundo, dos geraldinos e arquibaldos, dos versos de Jorge Ben, do "vou levar foguetes e bandeiras", de Nelson Rodrigues, das monumentais marquise e arquibancada que testavam as leis da física. Tudo sob a benção do Cristo Redentor.

Com a destruição dos setores, arquibancada, cadeiras e geral "planificados" numa só "rampa" que escorrega até o gramado, o New Maracanã tem o aspecto de qualquer arena pelo mundo. A cobertura também é outra. O novo só lembra o antigo por fora, mas a bola corre por dentro.

Só resta lamentar. Quase nada disso, ao custo de mais de R$ 1 bilhão, precisava ter sido feito. Ficou o local, o nome e, claro, o espírito do velho estádio à espreita, revivido quando lotado, no embalo das torcidas de Flamengo, Vasco, Botafogo e Fluminense. Mais óbvio ainda, entretanto, que jamais será o mesmo novamente.

Da minha parte, fica o conforto de ter conhecido o velho Maraca, aquele que enlouqueceu milhões de torcedores por décadas e alucinou o imaginário de todos os apaixonados por futebol. Foi em 2006, já em reforma para o Pan.

De passagem pelo Rio, fui diplomado num Botafogo e Ipatinga, pela Copa do Brasil, e poderia ser o mais reles jogo que não faria a menor diferença. Um dia eu precisava estar lá. E, então, Maracanã: eu fui.

Em êxtase, avistei o estádio da saída do metrô e caminhei até a entrada principal...

Arquivo pessoal
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Avancei em delírio pela rampa...

 Arquivo pessoal
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Até avistar, apoteoticamente, pela fresta do acesso, o palco...

 Arquivo pessoal
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Obrigado, Maracanã. Descanse em paz.

 Arquivo pessoal
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Obs: texto inspirado pelo "Muito mais do que futebol", com Mauro Cezar Pereira, Lúcio de Castro e Leandro Iamin.

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