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André Pugliesi

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Petraglia venceu. Antes popular, torcedores do Athletico agora detonam promoção do Coritiba

Petraglia venceu. Antes popular, torcedores do Athletico agora detonam promoção do Coritiba
| Foto: Albari Rosa/Gazeta do Povo
    • 07/06/2019 14:44

    A promoção de ingressos por parte do rival Coritiba, que comercializou três jogos por R$ 15, ou a bagatela de R$ 5 por partida, detonou uma curiosa reação de torcedores do Athletico. Nas redes sociais, onde hoje se cria o zeitgeist de arquibancada, rubro-negros passaram a vibrar com a chance de pagar muito mais caro por uma simples entrada: R$ 150.

    Cada um com as suas taras. Mas, ao fundo, a reação é o produto, bem acabado no Twitter e Facebook, de um desejo sempre alimentado, nada secretamente, pelo cartolão do clube, Mario Celso Petraglia. Para o atual presidente do Conselho Deliberativo, lugar de pobre é sentado em frente da TV, não dentro do estádio.

    A desculpa é aquela de sempre, frouxa. De que o pobre não tem dinheiro para mais nada, que não consegue consumir, que o "futebol está caro", que "não dá para competir", ladainha repetida desde os anos 90. Ora, com os estádios às moscas, que tal encontrar uma medida que possa incluir, ao invés de excluir? As promoções mostram que há vontade de participar, mesmo que eventualmente.

    Outra justificativa costumeira, é de que o plano de sócio atenderia ao regime popular. O torcedor se compromete com um montante entre R$ 100 e R$ 150 por mês e, na divisão, gastaria "meros" R$ 50 por jogo. Como se o brasileiro, duelando com uma grave crise, pudesse empenhar, mês a mês, outrovalor além de luz, água, gás, condomínio, aluguel, comida, escola etc.

    Não quero aqui, no entanto, entrar em elucubrações envolvendo soccer business, canibalização do plano de sócios, fontes de receitas, muito menos misturar os desafios do esporte com os da gestão Paulo Guedes. Faço uma análise mais conceitual do que técnica. Minha preocupação é com a arquibancada, com o jogo que se desenrola no concreto armado.

    E o fato é que parte dos atleticanos, ou os new athleticans, como queira, fazem troça do rival que, na visão deles, está cobrando o quanto vale o clube atualmente: um Coxa pelo segundo ano penando no andar de baixo do futebol nacional, acossado por dificuldades financeiras. É o preço do "espetáculo", é o jogo de bola como "entretenimento", para ser consumido entre bebericos de cerveja e pipoquinhas trufadas.

    Os rubro-negros não percebem, entretanto, ou preferem fingir que não veem, que o Furacão, aparentemente com saúde econômica de "vaca premiada", como diria aquele cronista nunca citado por jornalistas esportivos, não comove sua gente. Está lá a ex-Baixada, atual Catedral da Copa, sem vibração, ocupada, normalmente, sequer em 35% de sua capacidade. Um cenário desolador, com raras exceções.

    E é sintomático que não haja um desconforto com essa situação, afinal, é exatamente o perfil que o clube reforça há tempos, incutido por alguém que, certa vez, afirmou que se um torcedor apenas quisesse comprar os 40 mil ingressos disponíveis, venderia. Vale a grana, não há sentimiento envolvido. Sai de cena o apaixonado que ganha o jogo no garganta, entre o torcedor de balanço financeiro, o torcedor de renda, ganho com partidas que é apenas uma parte dentre tantas.

    Assim, ao mesmo tempo em que o clube se consolida como uma das forças esportivas do Brasil e, quem sabe, até do continente, deixa para trás uma identidade construída por décadas. De um time que, diante de todas as dificuldades, e foram muitas, forjou uma das torcidas mais populares e vibrantes do país, dona do recorde de público de todos os estádios da capital.

    De uma agremiação, nascida no seio da elite curitibana, que ganhou força em todas as camadas da sociedade, exatamente no período em que os canecos desapareceram e o rival nadou de braçada, entre os anos 70 e 80. Uma equipe que, por anos, tinha orgulho de eliminar as diferenças sociais no abraço após um gol no Joaquim Américo de tijolinhos.

    Não me iludo. O plano do novo Athletico sempre foi esse: crescer com a exclusão, não com a inclusão. Conceito que, cada vez mais, outros clubes abandonam, tais como o Cruzeiro, São Paulo e Bahia. É possível se fortalecer, e faturar, sem deixar ninguém pelo caminho, basta querer. Um setor popular, por exemplo, limitado a 3 mil ingressos, por que não? Há mais de um milhão de rubro-negros do lado de fora.

    O Furacão, com a sua caminhada própria, tem hoje o estádio que sua direção sempre sonhou: elitista, calado, torcida organizada asfixiada, uma praça esportiva genérica. A novidade, agora, é que os novos atleticanos, ou melhor, new athleticans, se orgulham da segregação. Enxergam no ingresso barato, na participação popular, um defeito. Ao fim, Petraglia venceu.

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