Não gosto da expressão "é muito mais do que futebol", embora transmita alguma verdade. É piegas e já virou clichê. Prefiro "é só futebol", como contraponto, mesmo que não seja verdade. Entretanto, e desculpe a confusão, a primeira é realmente útil em determinadas situações, como a que experimentei em 2012 e descrevo abaixo.

Fui enviado pela Gazeta do Povo a Londres para a cobertura da Olimpíada. Mal desembarquei na capital e, no dia seguinte, rumei para Cardiff, no País de Gales, para começar a perseguir a seleção brasileira, em nova turnê pelo ouro, novela que terminaria, de forma patética, no mítico estádio de Wembley.

Entre os dois episódios, fui parar, também de trem, em Manchester. Por lá, contei com a melhor companhia que qualquer repórter poderia ter: o jornalista Édson Militão. Minha mãe sempre diz que "ou muito lido, ou muito corrido" e o nosso Milita sempre reuniu as duas características: descobriu o planeta cobrindo esportes e é, também, leitor empedernido.

Após circularmos pela um dia apelidada Madchester, e de o Milita ter adormecido durante a mini-palestra na visita ao bunker do City, chegara o dia fundamental: Brasil e Bielorrúsia, pela fase classificatória, no Old Trafford, o lar do Manchester United. Neymar, à época mesmo um menino, com seu esdrúxulo moicano, jogaria, então, no Teatro dos Sonhos.

O que eu não esperava, era que não apenas o santista realizaria o desejo de desfilar num dos palcos mais charmosos do mundo, mas que o meu companheiro de cobertura também, não exatamente do mesmo jeito, é claro. Fantasia alimentada desde os tempos de moleque, quando o Edson varava as noites debruçado sobre o campo de futebol de botões.

Paixão pelo futebol inglês que despontou com o English Team, por causa, curiosamente, do célebre duelo com a Hungria, em 1953, considerada a Match of the Century. Os húngaros tratoraram a seleção da Inglaterra, por 6 a 3, mas o jovem Militão se encantou pelos donos do estádio, o clássico Wembley, entupido por mais de 100 mil pessoas.

A adoração migrou para o londrino Arsenal e alcançou o United, dois dos principais clubes do país. Foram infindáveis combates fratricidas, noites épicas de futebol de botão, entre o United de Edson e o Peñarol do irmão Júlio, na casa da Rua Manoel Ribas com a Jacarezinho, no bairro Mercês. Espetacular tortura para a mãe Carmen e a irmã Jeanine.

Até que o escrete do Manchester, em fevereiro de 58, embarcou em Munique e nada mais foi do mesmo jeito. Na terceira tentativa de decolagem, o voo 609 da British European Airways que levava os Busby Babes despencou e fez 23 vítimas fatais das 44 pessoas a bordo. Entra elas, os ídolos do Milita: Tommy Taylor, Byrne, Colman, Edwards e outros.

E seria impossível seguir adiante se todos os craques dos Diabos Vermelhos não tivessem sido, milagrosamente, salvos, ao menos na imaginação do Edson, àquela altura um ás das palhetas, com medalhas conquistadas no Colégio Estadual. Você sabe, no futebol de mesa, os times são eternos enquanto houver espaço no armário ou desde que não se percam nas mudanças.

Pois foi com esse esmero que, bem acondicionados numa caixinha, com talco para bloquear a ação do tempo, que os botões do United do Milita foram do Brasil até a Inglaterra, em 2012. Sensacional jornada, confortavelmente instalados na bagagem do jornalista paranaense com mais credenciais esportivas da história.

E, quando a bola estava prestes a rolar, os tic-tacs emergiram da bolsa do dono, para a minha surpresa, diante do artefato invulgar. Taylor, Edwards, Byrne e Colman esparramaram-se pela bancada e, de alguma forma, ressuscitaram em casa, o Old Trafford. "Quis fazer uma homenagem póstuma", me disse o Milita.

O United de volta ao Old Trafford. Arquivo pessoal
O United de volta ao Old Trafford. Arquivo pessoal
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