A Conmebol anunciou que disponibilizará 50 mil doses de vacina para imunização contra o coronavírus de jogadores e demais envolvidos nas competições que organiza, tais como Sul-Americana, Libertadores e, principalmente, a Copa América. Disse ainda que descolou o imunizante, fabricado pela Sinovac, numa trama com o Governo do Uruguai.

E ficou por aí. Não há maiores informações. Como, por exemplo, quando tudo pode acontecer, quem será vacinado (seleções serão priorizadas? Clubes?), se haverá algum tipo de contrapartida social, levando-se em conta o quadro ainda grave de disseminação do coronavírus na América Latina, especialmente no Brasil, o maior país do continente.

Antes de qualquer coisa, é sempre saudável recordar do que se trata a Conmebol. A entidade que regula o futebol sul-americano é historicamente envolvida em corrupção, protagonista de escândalos em série, notadamente o Fifa Gate, o mais recente deles. Assim, limpamos a área de puxa-sacos, baba-ovos e arremessadores de confetes.

Também é útil desviar da discussão principal: o quão correto é vacinar jogadores de futebol, enquanto idosos, pessoas com comorbidades e profissionais expostos ao perigo da contaminação esperam na fila? Considerando ainda que estamos falando de atletas de elite, que fazem testes com frequência semanal e dispõem de acompanhamento médico dos clubes.

Há, entretanto, o aspecto esportivo do, digamos, presente sanitário da Conmebol, o qual prefiro me concentrar, mesmo que não consigamos nos aprofundar. Ora, é evidente que a vacinação de apenas parte dos atletas, os envolvidos em torneios sul-americanos, deve gerar um desequilíbrio técnico nas demais competições.

A lógica é simples, óbvia até. Times com vacina terão seus elencos menos sujeitos aos desfalques da contaminação por Covid-19, algo que, ao longo do último ano, nos acostumamos a ver rodada a rodada. Enquanto os demais, não vacinados, terão de se virar sem aqueles que, na ocasião, estarão na clausura da quarentena.

Rival do Athletico na Sul-Americana, o equatoriano Aucas jogou esses dias com sete atletas. Uma esculhambação que pode ser repetida, de outras formas, caso o plano de vacina da Conmebol prosperar. Assim, determinadas equipes estariam sempre com o que tem de melhor, enquanto as demais, bem, aí vai depender dos governos locais etc.

Assim, quem sabe, podemos ter um clássico vacinados contra não-vacinados. Ou medir como tem sido o desempenho na tabela dos times totalmente imunizados, como os da Libertadores, contra os não-imunizados, envolvidos apenas em disputas brasileiras. E seria página épica da história da bola se, por exemplo, um time pequeno da Copa do Brasil, não vacinado, desbancasse um gigante vacinado.

Confesso, não me preparei para o quadro de esporte distópico em pleno 2021, como num filme do John Carpenter. Aquela cena de "Fuga de Los Angeles", em que o personagem Snake, vivido por Kurt Russel, precisar acertar uma cesta do meio da quadra para sobreviver, já não parece tão absurda assim como em no meio dos anos 90.

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