Há esportes que admiro, mas nunca tive vontade de praticar. E o skate é um deles.

Não sei se foi o medo de tombos ou a falta de equilíbrio, mas nunca pus os pés num skate. Mesmo assim, sempre curti filmes sobre o esporte e, especialmente, sobre a cultura marginal e alternativa do skateboard. Além, claro,  de ouvir bandas como Suicidal Tendencies, T.S.O.L., Dead Kennedys, Circle Jerks e tantas outras adoradas pelos praticantes do esporte.

Em 2014, escrevi sobre a memória de assistir, numa velha fita de vídeo, ao lendário “Bones Brigade Video Show”:

Se você era adolescente na segunda metade da década de 80 e tinha algum interesse por skate, com certeza lembra a primeira vez que viu o filme. Naquela época, ele circulava em fitas de vídeo, trazidas por algum felizardo que tinha viajado ao exterior ou que tinha um parente iloto da Varig.

Lembro a primeira vez que vi: foi na casa de um amigo, cuja família era dona do primeiro – e único – aparelho de videocassete do bairro.

O filme começava com um apresentador de TV caretão, falando alguma coisa sobre skates. Um sujeito louro assiste ao programa, sentado num sofá. O lourinho se revolta: “Isso não é um skate!”. Ele pega uma marreta, destrói a TV, e tira de dentro dela um skate lindo, colorido e cheio de desenhos irados. “Isso sim é um skate!” Em seguida, apareciam imagens alucinantes de skatistas voando em half pipes, fazendo manobras que nunca tínhamos visto antes.

O filme chamava “Bones Brigade Video Show” e foi lançado em 1984, mas demorou pelo menos dois anos para chegar ao Brasil. E o lourinho era Stacy Peralta, uma lenda do skate. Nos anos 70, Peralta fizera parte dos Z-Boys, o mitológico grupo de skatistas que incluía nomes como Tony Alva, Jay Adams, Peggy Oki e Bob Biniak (em 2001, Peralta faria um documentário sensacional sobre a equipe, chamado “Dogtown and Z-Boys”; se não viu, assista).

Depois de se aposentar das competições, Peralta fundou, com o empresário George Powell, uma marca de skate, a Powell-Peralta, e teve a ideia de criar a maior equipe de skatistas que o mundo já conhecera. Depois de fuçar por meses em pistas, procurando os moleques mais talentosos e ousados, juntou uma turma que mudaria o esporte: Tony Hawk, Steve Caballero, Rodney Mullen,  Tommy Guerrero, Alan Gelfand, Mike McGill e Lance Mountain, entre outros. São esses monstros que aparecem voando pelos ares em “The Bones Brigade Video Show”.

Assisti às competições de skate nas Olimpíadas e fiquei muito feliz com as medalhas conquistadas pelo Brasil (três pratas, com Rayssa Leal, Kelvin Hoefler e Pedro Barros). Foi muito emocionante ver o triunfo de um esporte que chegou a ser proibido em São Paulo pelo prefeito Jânio Quadros, e depois liberado pela prefeita Luiza Erundina.

Espero que a molecada brasileira se inspire em Rayssa, Pedro e Kelvin e adote o skate. É um esporte que tem tudo para se tornar mais popular no Brasil, até porque é um dos poucos que não precisa de nada para ser praticado, apenas de asfalto. Ou seja: independe de investimento público.

O skate, mais que um esporte, é um estilo de vida que valoriza a ocupação de espaços urbanos e celebra as cidades e suas arquiteturas. Entendo que alguns skatistas mais ortodoxos vejam na recente superexposição do esporte nas Olimpíadas uma desvirtuação de seu caráter contracultural e rebelde, mas acho que os benefícios serão, a longo prazo, maiores. As Olimpíadas abriram as portas do skate para uma multidão de jovens brasileiros. Que eles aproveitem...

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