Em 1977, o fotógrafo Ronaldo Theobald, do Jornal do Brasil, estava no estádio da Portuguesa, na Ilha do Governador, Rio de Janeiro, cobrindo o jogo Portuguesa x Vasco. O estádio da Portuguesa tinha um bizarro túnel de arame que levava dos vestiários ao campo. Theobald viu Roberto Dinamite, ídolo do Vasco, caminhando em direção ao gramado e fez uma foto de dentro do túnel.

A imagem mostra os torcedores esticando os braços para dentro da estrutura de arame, na esperança de tocar em Dinamite. É uma fotografia lindíssima e que mostra a devoção do torcedor por seu ídolo. A imagem venceu o Prêmio Esso de 1977. Para mim, ela tem uma emoção especial: eu morava na Ilha do Governador e fui muitas vezes àquele estádio.

Doze anos depois da foto, em 1989, entrei como “foca” (gíria para jornalista novato) na editoria de Fotografia do Jornal do Brasil, onde conheci não só Ronaldo, mas uma verdadeira constelação de grandes fotógrafos: Evandro Teixeira, Luiz Morier, Custódio Coimbra, Adriana Lorete, Geraldo Viola, Marco Antônio Teixeira, Tasso Marcelo, André Durão, Bruno Veiga, Sérgio Moraes... era um Dream Team.

A foto de Dinamite do Ronaldo Theobald.
A foto de Dinamite do Ronaldo Theobald.

Trabalhar com aquela turma foi o equivalente a fazer cem cursos de fotografia. Durante os quase dois anos que fiquei lá, fotografei todo tipo de evento: comícios políticos, tiroteios, crimes, exposições de arte, discursos de políticos, até o Macaco Tião. Mas o filé era fotografar jogos de futebol no Maracanã.

Aqui, uma pausa para lembrar que as câmeras usadas naquela época não tinham os recursos que têm hoje. Não havia foco automático, ou seja, era preciso acompanhar o lance com muita atenção para não errar o foco e fazer uma imagem desfocada. E acertar o foco num jogo de futebol, com os jogadores correndo feito loucos, é absurdamente difícil.

Eu gostava tanto de fotografar futebol que pedia para ser escalado mesmo em dias de folga. Muitas vezes fui de penetra, só para poder sentar atrás do gol, carregando uma pesada lente de 300 milímetros, e tentar a sorte fotografando Romário, Dinamite, Bebeto e outros craques.

Eu adorava também conversar com fotógrafos de outros jornais e ouvir as histórias de suas coberturas. Tive a felicidade de conhecer Ari Gomes, um herói para qualquer um que gosta de jornalismo esportivo, autor, entre centenas de imagens antológicas, do registro do recorde mundial do salto triplo obtido por João do Pulo no México, em 1975. O cara era tão bom que o apelidávamos, com uma ponta de inveja, de “Ari Cagada”, porque todas as jogadas mais legais pareciam acontecer na frente dele.

Os papos com Evandro Teixeira, Ronaldo Theobald e Geraldo Viola, alguns dos veteranos da editoria, eram sensacionais. Lembro Viola contando que usava, em seus primeiros dias de jornal, uma lente soviética tão pesada que necessitava um monopé para ser equilibrada. A geringonça não tinha anel de foco como as lentes “normais”, mas um gatilho, igual ao de uma arma, que você pressionava para movimentar os vidros internos da lente e tentar clicar a imagem em foco. Não dava nem para imaginar a dificuldade de fotografar futebol com um troço daqueles.

No Natal de 1989, o editor me mandou ao campo da Portuguesa, mas não para fotografar um jogo. O evento era a chegada de Papai Noel. O bom velhinho entraria no campo e distribuiria doces e brinquedos para crianças carentes.

Quando cheguei ao estádio, percebi que o Velho Noel teria de fazer o mesmo caminho percorrido por Dinamite em 1977. Havia, a exemplo do jogo do Vasco, uma multidão de crianças ao longo do túnel de arame. Posicionei-me mais ou menos no mesmo local em que Theobald clicara Dinamite e fiz uma foto bem engraçada, que mostrava Papai Noel andando pelo túnel, carregando um saco de brinquedos, e as crianças tentando tocá-lo.

De volta à redação, pedi ao laboratorista para ampliar a foto e entreguei a cópia para Ronaldo: “Olha aí, fiz uma foto melhor que a sua!” Ele quase morreu de rir. Infelizmente, não guardei cópia da foto. Que saudade daquela turma.

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