Não entendo nada de surfe. Amo o mar e as atividades náuticas – vela, pesca, mergulho, caiaque – mas não curto o lado “adrenalina” do oceano. Sempre preferi as atividades marinhas mais contemplativas.

O que não quer dizer que não admire o surfe. Acho um esporte fascinante e entendo o fascínio que exerce em tanta gente. E mesmo não praticando o esporte, adoro ver imagens de ondas gigantes e do(a)s surfistas que as desafiam.

Esses dias, passei um tempão vendo e revendo imagens de uma onda rara que, devido à ressaca, surgiu na Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro, mais precisamente na Laje da Besta, localizada entre Niterói e o Pão de Açúcar.

São imagens impressionantes, especialmente para quem já navegou por ali em dias de mar tranquilo. Difícil acreditar que ondas tão violentas possam surgir naquele local. Veja:

Assistindo ao filme, não pude deixar de pensar em um dos livros mais legais que já li sobre esporte: “Dias Bárbaros – Uma Vida no Surfe”, de William Finnegann.

Na verdade, não é apenas um “livro sobre esporte”, mas uma autobiografia de Finnegann, grande repórter que cobriu inúmeros conflitos militares e civis em diversas partes do mundo, como o apartheid na África do Sul, o genocídio em Ruanda, a guerra na Bósnia, os cartéis de droga no México e a guerrilha em El Salvador.

Acontece que, no meio de suas coberturas, Finnegann, obcecado por surfe desde a infância, passada no Havaí, sempre acha um tempinho para explorar as ondas locais.

Como todo bom repórter, Finnegann está sempre um passo à frente da concorrência. Nos anos 70, ele e um amigo descobriram uma onda em Fiji, que depois se tornaria famosa no circuito de surfe mundial. O mesmo ocorreu quase 20 anos depois, quando Finnegan ficou obcecado por uma monstruosidade de seis metros que quebrava na Ilha da Madeira, em Portugal, e foi um dos primeiros surfistas a se arriscar ali. Hoje, é uma das ondas mais procuradas do planeta.

O livro é emocionante mesmo para quem nunca pôs os pés numa prancha. Além de minuciosas descrições de ondas e tubos, Finnegan conta a história dos locais onde surfou, sua relação com os surfistas da região, e a maneira como esses picos foram transformados pela popularização e profissionalização do surfe. Ele é um romântico, que lamenta a mercantilização de um esporte tão puro e bonito.

“Dias Bárbaros” venceu o Pulitzer de melhor autobiografia de 2016. Finnegan veio à FLIP, a Festa Literária Internacional de Paraty, para lançar a edição em português, e tive a sorte de encontrá-lo na rua e parabenizá-lo pelo livro. Não deixe de ler, mesmo que você tenha medo de entrar na água.

Participe da conversa!
0