Muito comoventes os triunfos do surfista potiguar Italo Ferreira, medalha de ouro, e da skatista maranhense Rayssa Leal, medalha de prata nas Olimpíadas de Tóquio.

E que curioso que as duas medalhas vieram em esportes recentemente incluídos nos Jogos Olímpicos e que por muitos anos foram considerados, no Brasil, passatempo de desocupados.

É simbólico que atletas brasileiros tenham se destacado nesses dois esportes, modalidades individuais e que não dependem de nada além da dedicação dos próprios atletas.

Skate e surfe têm muito em comum: para treinar e desenvolver suas técnicas, Italo e Rayssa só precisam de mar e asfalto. Como disse o surfista em uma entrevista recente: “Eu voltava da escola e não tinha nada pra fazer. Eu só tinha o mar ali, na frente de casa”.

Assisti às finais do skate e do surfe com nossos dois filhos pequenos, e foi emocionante ver a identificação deles com os atletas. Nossa filha tem a mesma idade de Rayssa – 13 anos – e o menor, de 9 anos, ama o oceano e é fascinado por surfe, mesmo sem nunca ter subido numa prancha.

Italo e Rayssa são atletas de ponta, mas parecem pessoas “normais” (não são o Usain Bolt ou o Michael Phelps) e praticam esportes acessíveis a qualquer um. Espero que as imagens das vitórias deles incentivem jovens brasileiros a se dedicarem ao esporte.

É impossível ver a entrevista de Italo Ferreira chorando ao lembrar a avó (“Só queria que minha avó estivesse aqui pra ver isso”), ou a simplicidade contagiante de Rayssa chamando o astro do skate Tony Hawk de “Tonyzinho”, e não compará-las, por exemplo, à recente imagem do “menino” Neymar posando ao lado de seu novo helicóptero particular orçado em 50 milhões de reais.

Claro que Neymar tem todo o direito de comprar o que quiser e de ostentar um mimo tão caro, mas nem tudo que é legal é moral. Acredito que um esportista, em especial alguém de tanta visibilidade e influência, poderia ter um pouco mais de sensibilidade para perceber que o país está passando por um momento desesperador, com números recordes de pessoas com fome e sem teto, e evitar esse tipo de ostentação.

Por outro lado, deve ser inspirador para um jovem brasileiro ter atletas como Rayssa e Italo de modelos. Eles praticam esportes acessíveis, só precisam de um skate e uma prancha, e não dependem de mais nada e de mais ninguém. Porque o esporte no Brasil, a exemplo de tantas outras coisas, está completamente estagnado e sem apoio. Só não nos tiraram ainda o mar e o asfalto.

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