Nenhum esporte rendeu tantos bons filmes quanto o boxe: de “Touro Indomável” (Martin Scorsese, 1980) a “Rocky” (John G. Avildsen, 1976), passando por “Cidade das Ilusões” (John Huston, 1972) ou “Ali” (Michael Mann, 2001), o pugilismo foi levado às telas com destreza e realismo.

O atletismo também mereceu filmes inspirados, do multipremiado “Carruagens de Fogo” (Hugh Hudson, 1984) ao hoje pouco falado “Personal Best” (Robert Towne, 1982). Diabo, até o golfe, esse esporte dos menos “cinematográficos”, mereceu bons filmes, como “O Jogo da Paixão” (Ron Shelton, 1996).

Se todas essas modalidades esportivas inspiraram cineastas, o que explica o futebol, um dos esportes mais populares do mundo, ter sido levado às telas de maneira tão desapontadora?

De todos os filmes sobre futebol que já vi, os melhores são os que se concentram em questões extracampo, seja a relação dos torcedores com jogadores, como “À procura de Eric” (Ken Loach, 2009), estrelado por Eric Cantona, ou em histórias pessoais, como “The Damned United” (Tom Hooper, 2009), um ótimo filme sobre a fracassada tentativa do ex-jogador Brian Clough de comandar, como técnico, o time do Leeds United em 1974.

Filmes que tentam replicar a experiência do jogo de futebol raramente têm sucesso. A grande maioria dos filmes que vi parece ter sido rodada por alguém que nunca entrou num campo e não entende a dinâmica do jogo. O futebol cinematográfico é um esporte diferente do futebol de verdade.

E olha que grandes cineastas já tentaram filmar futebol. Um exemplo é John Huston, diretor de “Relíquia Macabra” (1941) e “O Tesouro de Sierra Madre” (1948) e craque do cinema, mas que se mostrou um verdadeiro perna-de-pau ao filmar Pelé, Ardilles e Bobby Moore – além de Sylvester Stallone de goleiro – no risível “Fuga para a Vitória” (1979).

Por que nosso futebol parece tão falso nas telas?

Para efeito de comparação, vale a pena assistir a um filme sobre outro futebol, o americano: “Um Domingo Qualquer”, que Oliver Stone dirigiu em 1999. Mesmo que você não goste e não entenda nada sobre futebol americano, é impossível não admirar a forma realista e impactante com que as cenas de jogo foram filmadas. Você se sente dentro do campo.

Uma explicação possível é o fato de que nosso futebol é jogado de maneira contínua, ou seja, sem paradas ou breaks comerciais, como acontece com os esportes mais populares nos EUA (basquete, hóquei, beisebol e futebol americano).

Em comparação com esses esportes, nosso futebol tem menos momentos “decisivos”. No basquete, por exemplo, um jogador pode, no meio de um jogo tedioso, dar uma enterrada ou um toco espetacular, levantando o público; já no futebol, tirando o gol, são menores as chances de jogadas merecedoras de destaque televisivo.

Outra dificuldade para quem filma futebol: tirando o momento do gol, as jogadas não têm “conclusão”: se um jogador dá um drible espetacular, a jogada prossegue, a menos que ele sofra uma falta ou marque um gol. Não há, como no basquete ou futebol americano, aquele momento pós-jogada espetacular, em que o atleta aparece comemorando ou encarando desafiadoramente o adversário.

Puxando pela memória, não consigo lembrar um filme de ficção sequer em que o futebol tenha sido mostrado de maneira realista. Lembra algum?

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