Adoro esportes, e assistir às Olimpíadas é um ritual que pratico com dedicação de quatro em quatro anos. Sou daqueles de acordar de madrugada para ver as finais da canoagem ou ficar acordado até quando não deveria para assistir a atletas que não conheço, disputando modalidades sobre as quais nada sei. Ontem mesmo, fiquei até altas horas assistindo a um búlgaro e um argelino se digladiando nas oitavas-de-final da luta greco-romana. Fascinante.

Mas confesso que está difícil assistir à cobertura olímpica da TV. Com raras exceções, os programas mais têm parecido “reality shows” motivacionais. É difícil ver uma prova em que os analistas privilegiem os aspectos esportivos às histórias pessoais dos atletas.

Nada contra contar essas histórias. O esporte é pródigo em lendas de superação pessoal, de atletas fora de série que venceram desafios imensos. O problema é quando essa visão do esporte como entretenimento toma conta do noticiário a ponto de esconder o lado esportivo.

Não vou citar nomes, até porque não vi a cobertura completa de todos os canais e posso estar sendo injusto com fulano ou beltrana. Mas outro dia vi a cobertura de uma prova em que um atleta brasileiro recebeu uma medalha, e os comentaristas passaram a maior parte do programa dizendo platitudes como “Fulano tem um coração imenso”, “Ele chorou com a medalha, é muito merecida” e “Poucos sabem por que esse coitado passou”.  Melodrama 7, informação 1. Foi só no final do programa que uma comentarista explicou que o tal atleta havia passado por algumas cirurgias inesperadas, que quase o haviam tirado da competição. Mas isso foi citado quase como um apêndice, um detalhe da cobertura lacrimosa.

Não é de hoje que quase tudo se rendeu ao chamado “entretenimento”: a crítica, seja de cinema, livros ou filmes, hoje é dominada por Youtubers engraçadinhos que fazem vídeos de 40 segundos para não aborrecer a quem assiste. O jornalismo vive uma época de infantilização, em que mesmo assuntos sérios são tratados com viés apelativo e “caça-cliques”.

Esse fenômeno é mundial. Tenho assistido às Olimpíadas em emissoras latinas, europeias e norte-americanas e, com raras exceções, o tom é o mesmo: no lugar de análises técnicas e esportivas, sentimentalismo barato; em vez de informação, histórias moralistas e piegas.

Dia desses, vi num canal latino a final da competição de arco e flecha masculino. Não entendo nada da modalidade, mas acho linda. O vencedor foi o turco Mete Gazoz, que venceu na final o italiano Mauro Nespoli.

Achei Gazoz muito jovem e fui pesquisar sobre ele. O cara tem 22 anos, começou a competir há apenas oito e ganhou a primeira medalha de ouro olímpica do arco e flecha da história do esporte turco. Uma história muito interessante, mas completamente ignorada pela cobertura, que se limitou a mostrar Gazoz, depois da prova, chorando ao falar com os pais ao telefone.

Para evitar me aborrecer com esse tipo de melodrama, tenho privilegiado esportes menos badalados (luta greco-romana, canoagem, levantamento de peso), em que os comentaristas não conhecem tanto os atletas e não precisam alavancar a audiência – que é baixa para essas modalidades - com moralismos e histórias edificantes. As competições já são emocionantes por si próprias e não precisam de adereços narrativos.

Agora dão licença, que está rolando a final do levantamento de peso na categoria até 109 kg, em que Lasha Talakhadze, da Geórgia, acaba de bater o recorde mundial com 488 kg, somados o arranque e o arremesso. Emocionante demais.

Participe da conversa!
0