Um dos maiores fenômenos da música pop foi a discoteca. Até hoje, quando vemos uma foto de John Travolta vestido de Tony Manero ou escutamos o trio Bee Gees cantando “Stayin’ Alive”, somos imediatamente transportados para 1977, época de calças “boca de sino” e globos de espelhos despejando luzes em pistas de dança lotadas.

A discoteca nasceu antes disso, por volta de 1973, em casas noturnas das comunidades gay, negra e latina em cidades como Filadélfia e Nova York. E morreria – ou pelo menos teria decretada sua morte simbólica – na noite de 12 de julho de 1979, em Chicago. E de todos os lugares em que a discoteca poderia ter escolhido para morrer, ela resolveu perecer justamente num campo de beisebol.

Conto a história em meu livro “Pavões Misteriosos”:

“Um famoso disc jockey de rádio, Steve Dahl, que havia sido despedido de uma emissora depois que ela trocou o rock pela discoteca, convenceu o time de beisebol White Sox a deixar que ele fizesse, durante um intervalo de uma rodada dupla contra o Tigers, de Detroit, um protesto contra a discoteca. Dahl pediu aos ouvintes que levassem LPs de discoteca para serem destruídos no meio de campo.

O White Sox vivia uma crise na época e não costumava atrair mais que 20 mil fãs aos seus jogos. No entanto, quando a primeira partida da rodada dupla começou, todos os 45 mil lugares do estádio estavam lotados, e mais de 30 mil pessoas tentavam entrar. Muitas carregavam cartazes que diziam “Disco sucks” (“A discoteca é uma porcaria”).

No intervalo, Dahl entrou em campo com uma caixa cheia de discos. O público urrou. Assim que ele detonou explosivos e mandou a caixa de vinis pelos ares, a multidão invadiu o campo, arremessando discos para todos os lados e queimando LPs de discoteca. A polícia foi chamada para dispersar a turba. A confusão foi tamanha que a segunda partida da rodada dupla foi cancelada. O evento ficou conhecido como ‘O dia em que a discoteca morreu’.”

Veja as imagens impressionantes daquela noite:

Assistindo às imagens hoje, é difícil imaginar por que a discoteca causava tanto ódio em boa parte do público. Quem não viveu o fim dos anos 1970 não tem a noção de como a discoteca era dominante em rádios e na TV.

Entre 1977 e 1979, a discoteca dominou o mundo. Nomes como Bee Gees, Donna Summer, Chic, KC and the Sunshine Band, ABBA, Gloria Gaynor, Kool & the Gang, Sylvester, Village People, Santa Esmeralda, Diana Ross, The Trammps e Earth, Wind & Fire se revezavam nos primeiros lugares das paradas, em vários países.

Durante o ano de 1978, houve uma música de discoteca no topo da parada norte-americana durante oito meses. E roqueiros como Steve Dahl espumavam de raiva ao ver artistas famosos do rock embarcando na onda disco, como no caso de Rolling Stones (“Miss You”, 1978), Elton John (“Victim of Love”, 1979), Paul McCartney (“Goodnight Tonight”, 1979), Queen (“Another One Bites the Dust”, 1980), e até do Kiss, que gravou “I Was Made for Loving You” (1979).

No Brasil, a coisa não foi diferente: em 1977, dos 50 discos mais vendidos no país, pelo menos vinte, incluindo LPs e compactos, estavam associados ao gênero, como “I Love to Love” (Tina Charles), “You Leave me Now” (Chicago), “Don’t Go Breaking My Heart” (Elton John e Kiki Dee), “Fernando” (ABBA), “Isn’t She Lovely”(Stevie Wonder), “Nice and Slow” (Jesse Green) e “Dance and Shake Your Tambourine” (Universal Robot Band). A produção nacional não ficou atrás. “Meu sangue ferve por você” (Sidney Magal), “Desliga o mundo” (Painel de Controle) e “My Dear” (do Manchester, grupo brasileiro que cantava em inglês) venderam uma enormidade.

Em 1978, o domínio foi ainda maior: mais de 60% dos compactos e LPs que lideraram as paradas estavam associados à discoteca. Os sucessos internacionais incluíam Easy (Commodores), The Closer I Get to You (Roberta Flack), Zodiacs (Roberta Kelly), How Deep Is Your Love (Bee Gees), Emotion (Samantha Sang), Dance a Little Bit Closer (Charo), Os embalos de sábado à noite (Bee Gees e outros), Baby Come Back (Player), Scotch Machine (Voyage), Rendezvous (Tina Charles), Automatic Lover (Dee D. Jackson) e Get Off (Foxy). Já a produção brasileira de discoteca vendeu muito com Perigosa (Frenéticas), Amante latino (Sidney Magal), A noite vai chegar (Lady Zu), Quem é ele? (Miss Lene) e Tim Maia Disco Club (Tim Maia).

E isso tudo enquanto a Rede Globo exibia, entre julho de 1978 e janeiro de 1979, a novela Dancin’ days, com Sônia Braga, Antônio Fagundes, Lídia Brondi, Joanna Fomm e Glória Pires.

Para felicidade da discoteca brasileira, nossos radialistas e personalidades de mídia, diferentemente de Steve Dahl, não rejeitaram a discoteca, mas a abraçaram, como prova o “Programa Carlos Imperial”, em que o polêmico “Impera” recebia astros como Gretchen, Patotinhas e Miss Lene. Ou alguém seria capaz de imaginar Carlos Imperial promovendo uma “Noite de Quebrar Vinis de Discoteca” no campo do Botafogo?

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