Quando a Netflix anunciou a exibição de um documentário sobre Pelé, minha primeira reação foi de alegria. Sou fã de esportes, Pelé é um ícone mundial e fiquei muito impressionado com o documentário da Netflix sobre Michael Jordan e o Chicago Bulls, “The Last Dance”.

Se Jordan mereceu dez episódios, quantos mereceriam o Rei? Vinte? Trinta?

No dia da estreia, reuni a família para assistir ao filme. Queria que nossos filhos, de oito e doze anos, conhecessem o maior jogador de futebol do mundo. Minha geração se acostumou a ver, na TV, os gols e jogadas de Pelé, mas as gerações mais novas não tiveram tantas chances. Nossos filhos conhecem mais o Messi que Pelé.

Começamos a ver o filme, e a molecada estava vibrando. As cenas da Copa de 70 são lindas, e as imagens estavam mais limpas e coloridas do que nunca.

Com o passar do tempo, a alegria deu lugar ao tédio. As crianças curtiram, claro – quem não vibraria ao ver, pela primeira vez, o drible sem bola no goleiro uruguaio Mazurkiewicz ou a defesa do inglês Gordon Banks naquela cabeçada perfeita de Pelé? Mas eu, que conhecia a carreira de Pelé, fiquei decepcionado. Ao fim, era impossível não se perguntar: “Mas só isso?”.

“Pelé” parece um filme preguiçoso. Não é exatamente um “documentário sobre Pelé”, mas um filme sobre a participação dele em quatro Copas do Mundo – 1958, 1962, 1966 e 1970. Todo o resto – a infância, a chegada a Santos, os títulos com o time da Vila Belmiro, a fama planetária, a ida pro Cosmos – ficou em segundo plano.

É chato analisar um filme não pelo que ele é, mas pelo que gostaríamos que fosse, mas a verdade é que um documentário sobre Pelé, com a assinatura da Netflix, leva nossas expectativas às alturas.

Eu esperava ver cenas inéditas – ou, no mínimo, raras – do Santos e sua máquina de jogar bola, dos bastidores das Copas e da vida pessoal de Pelé. Mas o que vi foi o craque repetindo, pela milésima vez, platitudes sobre a pressão de ser o melhor jogador do mundo, lamentando sua contusão em 1962, no Chile, e o fracasso da seleção em 1966, na Inglaterra.

O filme carrega a mão na surrada questão da ditadura militar, que usou o time de 1970 como apologia ao governo. Os mais jovens podem ter se surpreendido com a história, mas é um tema amplamente discutido e sobre o qual a obra não traz grandes novidades.

Um dos poucos trechos mais interessantes foi o da conturbada relação entre Pelé e João Saldanha, o técnico sacado pelo presidente Médici pouco antes da Copa de 1970. O documentário dá a impressão de que Saldanha foi tirado por sua insistência em afirmar que Pelé estava sofrendo problemas de visão e por suas declarações polêmicas (“Eu não escalo Ministério e o presidente não escala a seleção”), mas havia outra questão espinhosa e ignorada no filme: Saldanha era comunista desde os anos 1940.

O filme traz depoimentos de jornalistas importantes como José Trajano, Juca Kfouri e Paulo César Vasconcellos e de companheiros de Pelé no Santos e na seleção, como Pepe, Rivelino, Jairzinho, Zagallo e Brito. Mas as entrevistas não revelam nada de novo, nada que não tenha sido falado mil vezes antes. Não é culpa de quem responde, mas de quem pergunta.

Há omissões imperdoáveis: no curto trecho dedicado à Copa de 1962, o nome de Garrincha sequer é mencionado (aliás, não lembro ter ouvido o nome dele durante o filme todo). Quem vê o documentário tem a impressão de que Amarildo ganhou aquela Copa sozinho.

Não se fala também do “Gol de placa”, ou das inúmeras ocasiões em que Pelé, um dos jogadores mais caçados em campo por adversários, revidou com o dobro da violência, quebrando a perna do alemão Kiesman no Maracanã e acertando uma cotovelada na cara do uruguaio Fontes, na semifinal a Copa de 1970.  

Fosse uma longa reportagem de TV, ninguém reclamaria de “Pelé”, mas, ao ostentar as marcas “Pelé” e “Netflix”, o documentário acena com uma qualidade que não entrega. E nem é questão de duração: quem viu “Diego Maradona” (2019), de Asif Kapadia, sabe que é possível contar, em duas horas e de forma comovente, a história de um ícone do esporte.

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