Nada mais natural que a Copa América acabe realizada no Brasil, depois de rechaçada pela Argentina.

Meus colegas da imprensa esbravejaram com razão:

Luis Roberto disse que a realização do torneio é “Um tapa na cara dos brasileiros”.

Galvão Bueno, que não é de se manifestar politicamente, sugeriu o cancelamento dos jogos: “Peço a Deus que alguém tenha uma crise de bom senso”.

Milly Lacombe escreveu: “É também uma delinquência que em muito colaborará para que os sonhos de matança da atual administração sejam superados”.

Juca Kfouri opinou: “Nada justifica trazer nove seleções sul-americanas, e eventuais novas cepas, a um dos epicentros da pandemia, dispensando recursos e atenções que precisam ser destinados aos nossos milhares de infectados”.

Concordo com todos. Não há o que discutir. Realizar o torneio no Brasil, agora, é um crime.

Mas sou um eterno otimista. Como não acho que seja possível convencer Bolsonaro a usar um bom senso que ele não tem, tento enxergar o absurdo por um lado bom – ou o menos pior: caso a Copa América seja realizada no Brasil, será nossa melhor chance para acabar com o resquício de afeto que ainda existe entre os brasileiros e a seleção.

Enquanto 500 mil pessoas morrem no Brasil, Tite comanda treinos e fala da alegria em “retornar à Granja Comary”. Neymar está mais preocupado em cobrir o logotipo da Nike de seu uniforme com um adesivo de emoji. “Com intensidade de sobra, Seleção Brasileira faz treino ‘tático posicional’”, diz a manchete de um texto no site da CBF.

Quer hora melhor para acabar com a ideia de que esse time é uma “Seleção Brasileira”? Desde que Ricardo Teixeira lembrou, em entrevista, que a CBF era uma associação privada, só chamo a seleção de “Time da CBF”, que me parece uma definição perfeita.

Por que Tite não se posiciona contra o absurdo de realizar um torneio num país em vias de ser atacado por uma terceira onda de Covid-19? Cadê os jogadores para reclamar dos riscos que isso traria a eles, aos profissionais envolvidos na cobertura do evento, e ao país?

Não é possível que os mais famosos jogadores de futebol do Brasil aceitem isso passivamente. Ninguém está pedindo para que eles se posicionem ideologicamente ou apoiem fulano ou beltrano. O caso já passou da política há muito tempo. É um caso de vida ou morte.

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