Os Estados Unidos estão prestes a dar mais uma cartada para popularizar de vez o futebol – o nosso futebol, não o futebol americano – por lá. E antes que alguém me xingue: sei que o futebol feminino pegou no país e milhões de meninas adoram praticar o esporte. Mas a verdade é que a liga profissional – a Major League Soccer – ainda não é o que fãs e investidores esperavam.

Os resultados financeiros de muitas franquias da MLS não são divulgados, mas é sabido que muitos times dão prejuízo. Aqui vai, em inglês, uma ótima matéria do “Financial Times” sobre o assunto.

Em 2026, a Copa do Mundo voltará a ser disputada nos Estados Unidos. Mas não apenas lá: os jogos serão divididos com os vizinhos da América do Norte, México e Canadá, formando a primeira Copa do Mundo continental. E detalhe: pela primeira vez, com absurdas 48 seleções.

Vai dar certo?

Tive a sorte de cobrir a Copa do Mundo de 1994, nos Estados Unidos, que, assim esperávamos, seria “o” evento a abrir as portas do país para o “soccer”. Mas não foi o que aconteceu. Vi jogos lotados – de Itália, Irlanda, Marrocos, Alemanha, Bélgica, Arábia Saudita, Nigéria e outros – mas com públicos formados, basicamente, por turistas ou imigrantes. Público norte-americano, mesmo, vi pouco.

E por que os norte-americanos têm tanta birra com o futebol? Em 2014, o lendário craque do basquete, Kareem Abdul-Jabbar, escreveu um texto no site da revista “Time” tentando explicar por que o “soccer” não pegava por lá.

Kareem diz, entre outras coisas, que no futebol “há muita movimentação, mas não há muita ação”, usa números de audiência da liga profissional de futebol dos Estados Unidos para provar que o futebol ainda gera muito menos dinheiro do que basquete, beisebol, futebol americano e hóquei, e diz que o público americano fica “frustrado” pelo baixo número de gols em algumas partidas.

O texto é muito bom. Kareem não critica o futebol, mas tenta explicar por que o esporte nunca será capaz de exprimir o “ethos Americano”.

Concordo com ele em 2014 e continuo concordando. Republico aqui o que escrevi, à ocasião:

Acho muito difícil que o futebol seja admirado nos Estados Unidos da forma como é no resto do mundo, assim como os brasileiros nunca conseguirão apreciar o jogo de beisebol.

Listei algumas razões que, acredito, ajudam a explicar essa barreira que existe entre os Estados Unidos e o futebol:

O futebol não é um esporte “televisivo” – O esporte, nos Estados Unidos, é feito para ser visto na TV. As partidas têm intervalos para comerciais de TV e o ritmo dos jogos é propositalmente acelerado, com tempos de posse de bola definidos para cada time (a exceção é o hóquei no gelo, mas o jogo é tão rápido e dinâmico que isso se torna desnecessário). No futebol, em contrapartida, um time poderia ficar tocando a bola por 90 minutos sem que o adversário sequer encoste nela. Para o público norte-americano, isso é um tédio mortal.

Americano odeia “zebras” – Com exceção do futebol americano, os outros esportes principais do país são decididos em séries de melhor de sete jogos. Vence quem ganhar quatro partidas. Para muitos americanos, é inconcebível que o melhor time não ganhe. Já no nosso futebol, “zebras” são comuns. Mas tente explicar para um americano que isso torna o jogo mais emocionante. Ele certamente vai reclamar que não é justo.

Os Estados Unidos são obcecados por estatísticas – Se você se aborrece com PVC falando de quantos impedimentos Romualdo Arpi Filho apitou em Madureira x Bangu em 1977, sugiro assistir aos programas esportivos nos Estados Unidos. Parte considerável da análise dos jogos – eu diria que a maioria – é dedicada a estatísticas e números. No beisebol, então, chega a ser doentio: os caras falam do percentual de acertos de um rebatedor contra lançadores canhotos em jogos diurnos e com ventos de até 15 km por hora. Já o futebol é um esporte à prova de estatísticas: um time pode dar um chute a gol e ter 5% de posse de bola e vencer um adversário que deu 78 chutes a gol.

Americano é obcecado pelo sucesso individual – Nem uma vitória dramática no último minuto arranca mais lágrimas nos Estados Unidos do que a história de um personagem solitário que obteve algum feito extraordinário. Um exemplo: em 1995, o país todo chorou quando Cal Ripken Jr., do time de beisebol Orioles, de Baltimore, bateu o recorde de jogos consecutivos disputados – 2130 – que pertencia, desde 1939, ao lendário Lou Gehrig, do New York Yankees. Não importava se o Orioles era um time horroroso, o povão só queria saber de Ripken. Em 1999, esse “feito” foi escolhido, por fãs de todo o país, o “maior momento do beisebol do século 20”. Já no Brasil, o feito de Rogério Ceni, que em 2013 bateu o recorde de Pelé de jogos disputados por um mesmo time, chegando aos 1117 jogos com a camisa do São Paulo, foi bastante comentado, mas sem um milésimo do fuzuê que os americanos fizeram para Ripken.

O futebol endeusa a “arte”; os Estados Unidos, o resultado – Sem tocar na bola, Pelé dá um drible no goleiro uruguaio Mazurkiewicz. O Rei pega a bola do outro lado e chuta, mas ela passa raspando a trave. A jogada é reprisada pela milionésima vez na TV, e qualquer um que ame futebol a assiste de novo, de boca aberta. Mas não há, no esporte norte-americano, jogada bonita que não termine em ponto ou bloqueio. Nenhuma TV reprisa uma “quase” cesta de Larry Bird, Michael Jordan ou Magic Johnson, mesmo que a jogada tenha sido espetacular. A beleza só é recompensada quando útil. Não há espaço para futilidades no esporte do Tio Sam.

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