Lucho González fará sua despedida, aos 40 anos, pelo Athletico, no duelo contra o Aucas, nesta quinta-feira (27). Convidamos o jornalista e escritor Sandro Moser para escrever sobre o adeus do volante argentino.

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Por coincidência, é outono em Curitiba na última semana da carreira de Lucho González.

Quer dizer, ainda não sabemos se ele vai realmente parar ou se vai jogar só alguma das partidas marcadas, nem se teremos os jogos, tampouco onde seriam. São mesmo tempos loucos.

Só sei que é outono e a lua está cheia. Aqui na minha área, o vento frio arranca as folhas caducas dos plátanos e cria um tapete castanho nas ruas que deixa o bairro com a cara de um poema de Otavio Paz.

Quando Lucho González aportou por aqui, na primavera de 2016, o mundo era outro. O clube então, nem se fala. A camisa, o nome e o escudo eram diferentes e havia muito mais espaços vazios em nossa sala de troféus.

Hoje sabemos que sua chegada foi mudança de rota certeira para o ciclo vitorioso do clube na segunda metade da década passada.

Quando me lembrar deste tempo, daqui a 20 anos, meu álbum de memórias terá Nikão protegendo a bola com o corpo e armando o jogo pela direita.

Na página seguinte, o general Thiago Heleno executando o imóvel goleiro colombiano.

Vou tomar um gole de vinho e “ouvir” de novo a Baixada gritando “Ruuuuben” depois de mais um gol. Vou chorar com a “Cirineta” e a cambalhota em Porto Alegre. A imagem final, porém, será Lucho levantando a taça.

Lucho González
Lucho González ergue a Copa do Brasil. Albari Rosa/Arquivo/Gazeta do Povo

Lucho fez gols importantes, bateu pênaltis decisivos e jogou muito, mas sua contribuição não cabia só no tempo de um jogo. Ele era Lucho o tempo todo e educava os jovens pelo exemplo.

Como colocar preço no que Lucho deu à geração de craques formada no Caju como Santos, Léo Pereira, Renan Lodi, Bruno Guimarães e outros tantos?

Alguns homens nascem com uma missão. A de Lucho González é erguer troféus, tarefa suprema do futebol. Que ele tenha levantado os seus quatro últimos com a camisa rubro-negra é um privilégio que nem todos entendem.

Lucho nunca foi o supercraque habilidoso e individualista, o arquétipo do jogador argentino que ainda predomina no imaginário brasileiro.

Lucho encarna o que em seu país se chamaria de um concepto futbolero. Uma ideia força. Ele é o jogador coletivo por excelência.

Acho que foi sobre isso que Paulo Autori queria dizer quando o definiu como um “animal competitivo”.

Meu palpite é que tudo isso só aconteceu por que Lucho viu as Copas de 1986 com cinco anos e a de 1990 aos dez. Só podemos imaginar o que Maradona e todo aquele jazz causaram na alma de um pibe que vivia atrás da pelota.

Consigo imaginá-lo nos potreros de Parque Patricios sendo o primeiro a chegar, organizando as regras e separando os times.

O pequeno Lucho parava o  jogo no meio e mudava para o quadro mais fraco para equilibrar a disputa. Depois, atacava no gol para a pelada não parar.

Lucho ama o futebol como qualquer um de nós.

Jugador de toda la cancha, com visão periférica além dos limites do campo e inteligência invulgar que muitas vezes escapa à percepção de gente muito burra que chafurda na própria xenofobia ou deslumbrados com seus tolos jogos de palavras hiper especializadas.

Lucho é elo perdido entre a época dourada do futebol como ópera do povo e o tempo de hoje quando torcer é exercitar o transtorno maníaco-depressivo no Twitter ou em caixas de comentários.

Por sorte, a maior parte da minha galera, aquela que gosta de bola e sabe o hino do Athletico de cor, cantou comigo na arquibancada: "Ôoooooô, Lu-cho Gon-zá-lez".

O futebol e o mundo podem mesmo ter mudado nos últimos 20 anos, mas Lucho seguiu fazendo o que sabe: jogando, liderando, tomando mate, sorrindo e levantando a taça.

Até chegar um dia como hoje em que ele pode parar de jogar, pois chegou no lugar em que já não precisa mais provar nada para ninguém. (Por mim, ele jogaria até o final do ano e seria o capitão do tetracampeonato paranaense).

A partir de agora, torço para que ele se torne o grande treinador que promete ser e que seja campeão de novo por aqui. Quem sabe ainda neste ano.

Aliás, é preciso louvar a lealdade que o Athletico teve com Lucho e como o clube soube ajudá-lo a conduzir com classe o final da carreira, algo que poderia se tornar um padrão a partir de agora.

Faz sentido que seja outono em Curitiba na semana em que Lucho González se despede do futebol.

Como diz a velha milonga, além das folhas, também “las premisas se caen lentamente, en los círculos que cierran y en los ciclos, en las vueltas del presente...”.

Lucho González deve parar de jogar esta noite. A história do Athletico segue adiante. Muito maior do que era antes dele chegar por aqui.

Hasta siempre, Comandante!

Sandro Moser é jornalista, escritor, autor da biografia "Sicupira - Vida e gols de um craque chamado Barcímio".

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