O chute forte de perna direita estufa a rede de Cassio, gol de empate do Athletico contra o Corinthians. Na comemoração, Fernando Canesin se benze e aponta as mãos para o céu. Os olhos se fecham e o pensamento é em Airton Santos Matos, o pai, que completaria 66 anos na véspera do duelo em São Paulo.

A lembrança toca o coração do meia do Athletico em forma de homenagem ao grande herói e amigo. A dedicatória do gol – o primeiro pelo clube –, junto com duas assistências em Itaquera, foi para o seu maior incentivador e conselheiro. Abençoado – e certamente guiado pelo pai -, teve a sua melhor atuação com a camisa do Furacão. E seu Airton deve estar feliz.

Companheiros, parceiros e confidentes, pai e filho não se desgrudavam e percorriam as ruas de Ribeirão Preto, em São Paulo, a bordo de um fusca azul 1973. Padeiro, seu Airton usava o carro para levar Canesin diariamente para escola, e aos finais de semana para os jogos e treinos pela cidade, principalmente na base do Botafogo-SP. Ano após ano, o carro virou parte da história e marca registrada da família.

Quem lembra bem das peripécias na infância com o fusca azul é Felippe Sigoli, amigo de infância de Canesin. Ou melhor, Fernandinho, como o jogador é chamado pelos mais próximos.

“O Fusca e o pai dele pareciam uma coisa só. O Airton sempre carregava a gente e levava pra tudo quanto é lado. Eu e o Fernandinho morávamos próximos, além de vários amigos da escola. Então, o Airton fazia o fusca de van e levava todo mundo para os eventos”, relembra ao UmDois Esportes.

Outra história curiosa aconteceu por volta dos 14 anos, na sétima série, quando eles participavam de um campeonato intercolegial. Na ida, cada um foi ao local da partida por conta própria. Mas na volta, pelo menos sete meninos estavam contando com a carona de seu Airton – e o fusca azul – para voltar para casa.

“O Airton deu carona para quase metade do time. Tinha uns três na frente, mais uns quatro atrás, tinha gente saindo pela janela! Foi aquela resenha boa demais”, se diverte Felippe.

Na primeira foto, à esquerda, Canesin ao lado do pai Airton e da mãe Regina. Crédito: arquivo pessoal.
Na primeira foto, à esquerda, Canesin ao lado do pai Airton e da mãe Regina. Crédito: arquivo pessoal.

A atuação contra o Corinthians em Itaquera deixou o amigo de infância orgulhoso.

“Ele ter feito o gol e ter dado as assistências é uma coroação muito especial. Fico abismado de como Deus faz as coisas assim. Justo ontem, quando o pai dele iria comemorar mais um ano de vida, o maior incentivador dele. Com certeza estava iluminado e o pai dele lá no céu o abençoou”.

Fusca azul reformado – e eternizado

Xodó de seu Airton, o fusca azul ficou parado na garagem por muitos anos, deteriorado pelo tempo e por algumas enchentes em Ribeirão Preto. Da Bélgica, Canesin comentou um dia com seu empresário que tinha o desejo de reformar o veículo.

Agente de Canesin desde que o jogador tinha 15 anos, Camargo Júnior atendeu ao pedido de recuperar o único bem deixado por seu Airton. O empresário tinha alguns carros antigos – inclusive um fusca -, e conhecia os atalhos para fazer tudo acontecer.

“A relação deles sempre foi muito bonita. O Canesin é praticamente da minha família. Ouvi de muitas pessoas que a reforma não compensava, mas comprei a ideia e trouxe o fusca para São Paulo”, lembra Camargo, da Choose Sport.

Fernando Canesin e o fusca azul do pai, reformado em maio de 2019 (Arquivo Pessoal)
Fernando Canesin e o fusca azul do pai, reformado em maio de 2019 (Arquivo Pessoal)

Ao todo, a reforma do fusca azul durou um ano e meio. Os itens originais foram mantidos e a memória de seu Airton se fez presente: seu ano de nascimento, 55, estampa todos os bancos do carro, e seu nome está cravado no porta luvas. O pai faleceu em janeiro de 2009.

“Deu trabalho e muita dor de cabeça, foi uma mão de obra difícil. Ele estava na Bélgica e ficava sempre perguntando como a reforma estava, naquela expectativa. Fiz tudo por ele e pelo pai. Era o sonho dele”.

“Quando ele contou que tinha recuperado o fusca foi muito legal saber. Foi como se ele tivesse eternizado uma parte da história dele com o pai”, relembra o amigo Felippe.

Em maio de 2019, o fusca azul, de cara nova, voltava às ruas de Ribeirão Preto. O carro continua na cidade paulista, mas Canesin tem planos de trazê-lo para Curitiba.

Hoje realizo um sonho, não só meu mas também do meu pai que sonhava tanto quanto eu, em poder fazer esse fusca brilhar novamente! Quero agradecer em especial ao meu empresário e acima de tudo, meu grande amigo Camargo, por ter sonhado junto comigo e ter feito esse sonho se tornar realidade! obrigado, do fundo do meu coração!”, escreveu Canesin, na época, em uma rede social.

Canesin vestia sua armadura vermelha e preta ontem no empate entre Corinthians e Athletico. Da cabeça aos pés. Nas costas, o número 55 estampado, ano de nascimento de seu Airton, que comemorou o aniversário no céu. Na mente do filho, a saudade do pai. E, na memória, as lindas e eternas lembranças com o fusca azul.

O empresário Camargo Júnior providenciou a reforma do fusca azul, carro do pai do jogador (Arquivo Pessoal)
O empresário Camargo Júnior providenciou a reforma do fusca azul, carro do pai do jogador (Arquivo Pessoal)

Trajetória de Canesin

Nascido em Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, Fernando Canesin passou pelas categorias de base do Santos e do Corinthians. No Brasil, disputou apenas uma Copa São Paulo e duas partidas da Série B Paulista pelo extinto Olé Brasil, antes de tentar a vida fora do país.

Aos 17 anos, fez testes no Anderlecht, na Bélgica, e foi aprovado. Em dezembro, voltou ao Brasil e disputou a Copinha No fim da competição, foi contratado em definitivo pelo clube belga, onde permaneceu até 2013. Lá foi escolhido como a revelação na temporada 2011/2012 após a conquista do Campeonato Belga.

Na temporada seguinte, o clube mudou o comando, o meia perdeu espaço e foi emprestado ao KV Oostende. Posteriormente, acabou sendo comprado e virou uma das estrelas do time. Nessa época, uma convocação para a seleção belga foi cogitada, após terminar a temporada 2015/16, mas uma lesão atrapalhou os planos. Na temporada seguinte, já recuperado, foi um dos principais nomes na campanha do vice-campeonato da Copa da Bélgica.

Canesin chegou ao Athletico em dezembro 2019 para jogar pela primeira vez como profissional no Brasil, depois de ter atuado por dez anos na Bélgica. Na quarta-feira, disputou o seu 23º jogo pelo Furacão e o primeiro gol pelo clube. O contrato com o clube vai até dezembro.

“Estava esperando por uma partida assim. Infelizmente, não conseguimos sair com os três pontos, mas estou feliz com a minha atuação, por ajudar a equipe com gol e assistências. Espero continuar crescendo para o clube”, disse ao site oficial após a partida.

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