O fechamento da primeira janela de transferências do futebol brasileiro deixou a sensação de preocupação em boa parte da torcida do Athletico. Após subir para a Série A na temporada passada com campanha irregular, a expectativa era de que o Furacão abrisse os cofres para reforçar o atual elenco na elite nacional.

A realidade, entretanto, foi bastante diferente. O Furacão foi o 7º clube que menos investiu em reforços dentre os 20 concorrentes do Brasileirão. No total, a diretoria liderada pelo presidente Mario Celso Petraglia gastou R$ 23, 2 milhões em cinco contratações: Alejandro Garcia, Gilberto, Jádson, Portilla e Luiz Gustavo.

Destes, apenas os dois últimos vêm sendo titulares sob o comando do técnico Odair Hellmann. E, mesmo assim, sendo criticados por suas recentes atuações.

Bem que Petraglia tentou abrir a carteira na compra recorde do colombiano Edwuin Cetré, do Estudiantes, da Argentina. O Furacão encaminhou acerto por 6 milhões de dólares (cerca de R$ 32 milhões) pelo atleta até certo ponto desconhecido no Brasil. Mas o negócio caiu por terra após Cetré reprovar nos exames médicos.

O Rubro-Negro apenas confirmou o fim do negócio com uma nota esdrúxula nas redes sociais e seguiu em frente, sem maiores explicações aos torcedores. Houve ainda uma vaga promessa de acertar com outro reforço no lugar de Cetré, mas nada aconteceu.

Athletico já mostrou que dinheiro nem sempre compra qualidade

Petraglia é reconhecido por muitos como o maior negociador da história do futebol paranaense. Gestor rígido, desenvolveu um método de sucesso: compra barato para vender caro. Negocia com firmeza. E não foram poucos os exemplos que deram certo. Mas, cada vez mais, precisamos recorrer ao passado para relembrá-los.

Há o caso de Vitor Roque, tirado do Cruzeiro por R$ 24 milhões e vendido ao Barcelona por R$ 213 milhões. Podemos lembrar também de Bruno Guimarães, que chegou sem alarde do Osasco Audax e já rendeu milhões ao clube, primeiro com a ida para o Lyon, e depois na sua venda para o Newcastle.

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Tigrinho no Furacão: lucro exorbitante deve ter deliciado os cartolas. Foto: Átila Alberti/Arquivo/UmDois

O sentimento, entretanto, é de que estes episódios são cada vez mais atípicos. Nos últimos anos, o Furacão rasgou dinheiro em atletas que não renderam nada em campo e, por causa disso, geraram prejuízo, tanto esportivo, como monetário.

Não à toa, o clube caiu para a Série B na temporada do centenário, em que fez um dos maiores investimentos de sua história, torrando quase R$ 80 milhões. Reflexos de um Petraglia que, cada vez mais, parece saber vender, mas não acerta a mão na hora de gastar.

Milhões jogados fora: cinco reforços recentes que fracassaram no Athletico

Considerando apenas as temporadas mais recentes, listamos cinco reforços que custaram caro aos cofres do clube, mas que não renderam em campo e acabaram dando prejuízo.

Marcio Lara é o diretor financeiro do Furacão. Foto: Átila Alberti/Arquivo/UmDois

A lista não considera jogadores que vieram “de graça” ou por empréstimo (atletas baratos, as famosas ‘oportunidades de mercado’, que todo mundo tinha certeza, ou quase isso, de que não vingariam), ou veteranos de altos salários, como Alan Kardec e Giuliano, mas que estavam livres no mercado.

Ou seja, a seleção é composta apenas por casos de alto investimento em compra de direitos econômicos por parte da diretoria atleticana, tendo em vista a realidade financeira do Furacão.

Léo Godoy: decepção argentina

“Classe na lateral”: foi assim que o Athletico anunciou a chegada do argentino Léo Godoy dia 6 de janeiro de 2024. O Furacão pagou cerca de R$ 19 milhões ao Estudiantes-ARG para fechar com o gringo no ano do centenário. Foram 42 jogos com a camisa rubro-negra, com um gol e quatro assistências.

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Foi triste ver Léo Godoy na ala direita do Furacão. Foto: Reinaldo Reginato/Fotoarena/Sipa USA

Para quem entende o futebol como feito integralmente de números, como muitos scouts e alguns especialistas da nova geração, a passagem pode ter sido até razoável. Mas não foi. O desempenho de Léo Godoy no Athletico foi terrível.

No ano seguinte, ele foi emprestado para o Santos, onde pareceu ter jogado ainda pior. Em junho do ano passado, não teve jeito. O Furacão vendeu Léo Godoy para o Independiente-ARG, por cerca de R$ 11 milhões, e teve de assumir um prejuízo milionário pelo menos R$ 8 milhões, fora salários recebidos, com o argentino.

Romeo Benítez: ‘joia’ do Paraguai

Ainda no final da temporada de 2023, o Athletico já anunciava os primeiros reforços para o aguardado ano do centenário. Os criativos scouts do CT do Caju pareciam ter encontrado uma grande promessa no Guaraní, do Paraguai. A diretoria de Petraglia não hesitou e pagou R$ 14,5 milhões para ter Romeo Benítez na Baixada.

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Alerta de imagem rara: Benítez em campo pelo Athletico. Foto: Carlos Pereyra/FotoArena/Alamy Live News/IconSport

Naquela ocasião, o jovem paraguaio ocupava a condição de quinta maior contratação da história do Athletico. Os influencers pediam calma nas redes sociais. Era necessária uma adaptação. Ia dar certo. Poucos meses depois, no entanto, o negócio provou ser um mico completo.

Benítez fez apenas sete jogos e chegou a anotar um gol com a camisa rubro-negra. E foi logo despachado por empréstimo para o Tigre, da Argentina. Após dois anos no clube argentino, retornou em definitivo para o país natal, para defender o Olímpia. Mais dinheiro perdido.

Mateo Gamarra: uma surpresa no CT do Caju

“Sargento no Furacão!”, anunciava o Athletico em seu site oficial no dia 19 de dezembro de 2023. Abaixo, o zagueiro Mateo Gamarra fazia gesto militar, já com a camisa do Furacão. Assim como Benítez, o CT do Caju abria as portas para mais uma promessa paraguaia, neste caso, do Olimpia.

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Pelo defensor com nome de craque, o Rubro-Negro desembolsou pouco mais de R$ 17 milhões por 75% dos direitos econômicos do jogador. Na ocasião, ele se tornava o terceiro reforço mais caro da história do clube. Foram 36 jogos na primeira temporada e mais dois na segunda, antes de um empréstimo para o Cruzeiro.

A impressão foi de que Gamarra foi empurrado goela abaixo no Athletico pelo setor de prospecção: nenhum técnico parecia confiar no paraguaio. Em março deste ano, mais um prejuízo consumado. Gamarra foi vendido pelo Furacão ao mesmo Olimpia, por R$ 7,8 milhões, menos da metade do que pagou para tê-lo.

Di Yorio: um negócio constrangedor

Em fevereiro de 2024, o Ahtletico anunciava o atacante argentino Lucas Di Yorio, em negociação que girou em torno de R$ 11 milhões. Na teoria, esperança de gols. Na prática, uma aula grátis de amadorismo da diretoria do Furacão na chegada de mais uma decepção.

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Em raro momento em que não estava tropeçando na bola, Di Yorio provoca a torcida na Baixada. Foto: Carlos Pereyra/Fotoarena/Sipa USA/IconSport

O Rubro-Negro passou constrangimento com Di Yorio antes mesmo dele entrar em campo, quando o diretor Marcio Lara cometeu uma gafe e divulgou, sem intenção, um documento com supostos valores da negociação, incluindo os alto salários do jogador.

Os números novamente podem dizer que os tempos de Di Yorio no CT do Caju não foram tão ruins: 43 jogos e 13 gols. Para os amantes do scout, a passagem deve ter sido boa. Mas para quem insiste em julgar um atleta por aquilo que vê dele em campo, Di Yorio foi horrível.

O ponto mais baixo aconteceu quando marcou um gol na Baixada contra um moribundo Paraná Clube e comemorou com as mãos nas orelhas, em frente à torcida atleticana, que o criticava. Ele foi emprestado para a Universidad Católica-CHI e, neste ano, vendido para o Santos Laguna-MEX.

Especula-se que o atacante tenha custado cerca de R$ 16,5 milhões ao time mexicano. Neste caso, pelo menos, o Rubro-Negro recuperou parte do investimento.

Léo Pelé: Petraglia pagou pra ver

Em dezembro de 2024, o Athletico abria novamente os cofres para trazer um dos primeiros reforços para o ano da Série B: cerca de R$ 12 milhões pelo folclórico zagueiro Léo Pelé, que vinha do Vasco. Para resumir, os vascaínos comemoraram, os são-paulinos, onde também jogou, fizeram graça e os atleticanos ergueram as orelhas.

Léo Pelé foi alvo de xingamentos racistas no Atletiba
Léo Pelé tem contrato longo, mas dificilmente voltará a jogar pelo time principal. Foto: Geraldo Bubniak/Gazeta Press

Leo Pelé surgiu no Flu, passou por Londrina e Bahia e em 2019 fechou com o São Paulo. Foram quatro temporadas no Morumbi, outras duas no Vasco. Quem acompanhou sua trajetória podia dizer sem medo que, embora tivesse surgido como um atleta promissor, Léo Pelé se tornara uma temeridade para qualquer zaga séria no país.

A contratação era, no mínimo, arriscada. Ainda mais por um valor milionário e contrato válido até 2028. Não deu outra. Léo até começou bem no fraquíssimo Paranaense, mas bastaram poucos jogos de Série B para ir para o banco.

Hoje, está encostado no CT do Caju, fora dos planos de Odair Hellmann, enquanto a diretoria rubro-negra deve se esforçar para tentar repassar mais um mico para a frente, talvez na esperança de recuperar, pelo menos em parte, o dinheiro perdido.

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