"Mãe, eu estou indo, mas não vai demorar pra eu tirar a senhora daí".

O ano era 2019. O filho único de Maria Socorro deixava Teresina, no Piauí, para um novo desafio no futebol. Após cinco anos jogando no Mirassol, chegava o momento de trilhar um novo caminho. No coração, Matheus Felipe carregava o sonho de dar uma vida melhor para a mãe, com quem morava em uma casa em frente à Vila Irmã Dulce, a segunda maior favela da América Latina.

Enquanto esperava por uma nova oportunidade no mundo da bola, veio a pandemia no ano seguinte. De família humilde, Matheus Felipe treinava por conta em um quartinho e depois ia correr na BR, todos os dias, cerca de 30 km. A frustração ficou de lado e deu lugar a um novo ânimo quando surgiu um convite do Grêmio Prudente (SP). Fez 13 partidas no time paulista e foi jogar o Campeonato Catarinense no Juventus de Jaraguá do Sul (SC). Três meses depois estava vestindo a camisa do CSA, onde foi destaque e despertou interesse do Athletico. As coisas, enfim, começavam a mudar.

Mas antes de falar sobre o momento atual do zagueiro de 23 anos, é preciso voltar no tempo. Mais precisamente quando Matheus morava no bairro Esplanada, na zona sul de Teresina. Dona Maria Socorro resolveu colocar o menino, então com sete anos, na "Escolinha do Luizinho", um campinho de chão batido que ficava perto de casa.

“Eu queria tirá-lo da ociosidade. A gente morava em uma zona de perigo, eu saía para estudar e deixava ele em casa. Eu já deixava tudo no ponto pra ele, e dizia ‘Você vai chegar, comer, fazer suas atividades, descansar e depois vai pra escolinha até a hora que o seu pai chegar’. Ele nunca se desviou ou teve más companhias. A gente vinha de classe humilde, tinha o básico”, contou a mãe em entrevista ao UmDois Esportes.

Matheus começou a se destacar nos campeonatos infantis, mas ainda não era zagueiro. Começou como atacante, depois virou volante, até se encontrar na zaga e fazer valer os seus 1,84m.

“Ele queria ser atacante. Eu dizia que atacante tem que saber driblar e ir pra cima. Ele falava, ‘Mas mãe, é atacante que ganha dinheiro!’. O time dele não tinha zagueiro, aí primeiro ele passou a ser volante e foi crescendo. Um dia o treinador disse, ‘Negão, tu vai ficar na zaga, tu é grandão e mete medo’. Aí apareceu uma peneira do Mirassol e ele foi de zagueiro”, relembra a pedagoga.

O treinador em questão é Luiz Santos, o Luizinho, que trabalha há 25 anos com escolinha e inclusão social na periferia de Teresina.

“Vi nele um potencial bom pra zagueiro pelo seu tamanho, jogada aérea, impulsão. E era bom na marcação também. Aos poucos fui convencendo que ele tinha que ser zagueiro porque ele tinha todas as características. E deu tudo certo, passou a jogar como zagueiro, fui orientando, e hoje está aí, um zagueiro de primeira linha e jogando Série A e Libertadores”, diz o primeiro técnico do jogador.

Aprovado no teste, Matheus foi jogar na base do Mirassol e dava início, de fato, ao sonho de ser jogador de futebol. Aos 15 anos, chegava a hora de sair de casa.

“Num primeiro momento eu não queria deixar, por ser o meu único filho. Foi aí que ele se ajoelhou na minha frente e disse ‘Mãe, deixa eu ir realizar o nosso sonho’. Tive que engolir muito choro para ele não perceber, até ele se adaptar, mas graças a Deus apareceram anjos que me substituíram”.

Matheus Felipe, zagueiro do Athletico
Momentos de Matheus Felipe, zagueiro do Athletico| Arquivo Pessoal e Divulgação/Athletico

Os “anjos” citados por Maria Socorro foram Maria Amélia e Cristina Palhares, mães dos jogadores Luís Oyama (hoje no Botafogo) e Matheus Aurélio (hoje no Caxias), então goleiro e volante do Mirassol. Longe do filho, Maria Socorro teve o apoio das duas que, segundo ela, abraçaram Matheus como se fosse filho durante os cinco anos em que o jogador esteve no time paulista.

“Passei muitos anos longe do Matheus. Eu não sabia o que era passar Natal e Ano Novo com ele. Eu preferia sempre que ele viesse a Teresina do que eu viajasse até ele, porque aqui ele ia ver a família dele, os amigos, ia passear, estar na casa dele. Eu só via o meu filho de ano em ano”.

Luiz Santos, primeiro técnico de Matheus Felipe
Luiz Santos, primeiro técnico de Matheus Felipe, e o zagueiro na escolinha onde tudo começou| Arquivo Pessoal

Destaque no CSA e promessa cumprida

Matheus jogou três Copinhas pelo Mirassol, onde se profissionalizou e ficou até o final de 2020, quando se desligou do clube. Voltou pra casa, meio desanimado, até chegar um convite de Paulo Tomasete, diretor do Grêmio Prudente. Hora de arrumar as malas de novo.

“Ele me pediu ajuda para ler os contratos. A partir daí o meu filho começou uma nova história”.

No final de 2020, em uma tarde de sexta-feira, Matheus ligou para a mãe, radiante, contando que tinha recebido uma proposta do CSA. Receoso, pediu sigilo sobre a novidade até tudo se concretizar. Em abril de 2021, o piauiense era anunciado pelo time alagoano, onde disputou 42 partidas, todas como titular, foi campeão estadual e destaque na Série B.

“O que mais chama a atenção nele são as valências gerais que ele tem e que um zagueiro moderno precisa, que é a concentração, velocidade, passe em velocidade, precisão, a imposição física e técnica. Ele é um jogador muito interessante e que o futebol moderno está buscando”, avalia Mozart, técnico do CSA.

Em novembro do ano passado, o telefone toca de novo na casa de Maria Socorro. Era o filho cumprindo a promessa que havia feito. Depois de dois anos morando na favela, a mãe mudava de casa.

“Mãe, a senhora quer morar onde? Na zona leste? Não falei que as coisas iam melhorar? Eu não disse que ia tirar a senhora daí"?. Em lágrimas, a mãe respondeu “Viu só, meu filho, Deus não esqueceu da gente”.

Athletico: Thiago Heleno no videogame à titularidade

Nem bem havia terminado a disputa da Série B, Matheus Felipe já era monitorado pelo Athletico, que queria o zagueiro no CT do Caju antes mesmo de acabar o campeonato. O jogador também tinha sondagens do Atlético-MG e do Cruzeiro, mas não pensou duas vezes em aceitar a proposta do Furacão, onde foi anunciado como reforço no dia 3 de dezembro com contrato até novembro de 2026.

Até agora, já são nove partidas pela equipe, sendo cinco pelo Campeonato Paranaense, duas pela Libertadores e duas pelo Brasileirão. A estreia foi no Estadual, com o time de aspirantes, na vitória sobre o Paraná Clube. Com a lesão de Thiago Heleno, que machucou o ombro e passou por cirurgia, Matheus Felipe assumiu a titularidade, ao lado de Pedro Henrique, e tem ganhado elogios dos torcedores nas redes sociais (veja mais abaixo).

Se tem jogo do Athletico, tem torcida no bairro Esplanada. Luizinho, o primeiro treinador, conta que os vizinhos se reúnem em bares e nos comércios para acompanhar o representante do estado em campo e “mandar energias positivas”. O sentimento do técnico é de orgulho pelo homem e atleta que Matheus Felipe se tornou.

“Tenho orgulho dele, principalmente por ser um jogador do nordeste. Ele é muito determinado, saiu de casa cedo à procura do sonho de ser jogador de clube grande. E ele conseguiu. Fico muito emocionado porque ele sabe de suas origens, de onde veio, de uma escolinha de periferia. Eu acredito que ele vá ainda mais longe”, torce.

Maria Socorro não esconde a felicidade com o momento atual do filho e deixa um recado.

“Até um dia desses ele jogava com o Thiago Heleno no videogame, e agora estão no mesmo clube. Ele está realizando um sonho, agarrando a oportunidade. O que eu digo  para as mães é que acreditem e abracem o sonho dos seus filhos. A caminhada e a jornada são árduas, mas uma hora Deus abençoa e nunca esquece dos seus”.

Matheus Felipe, zagueiro do Athletico
Matheus Felipe, zagueiro do Athletico| Divulgação/Conmebol

Bravo? Só a cara…

Por trás do semblante sério e típico de um zagueiro, Matheus Felipe é o filho amoroso da pedagoga Maria Socorro e do cobrador de ônibus Edilson Rodrigues. De "bravo", não tem nada, garante a mãe.

“Ele não é bravo, não. É só timidez. Eu até não sei como ele está conseguindo dar entrevistas, ele é muito muito tímido. Todo mundo via, desde criancinha, ele já jogava com cara de zangado. Era o jeito dele, sempre muito competitivo”.

A mãe fala mais sobre o perfil do filho único.

“Ele era bom aluno, não era muito fã de estudar, mas tirava boas notas. Uma das principais características dele é a humildade e honestidade. Ele é incapaz de falar mal de qualquer pessoa. Ele é amoroso, carinhoso, muito educado e cheio de coragem. Hoje é o orgulho do bairro”.

Maria Socorro, porém, confessa que não assiste aos jogos do filho.

“Eu nunca fui vê-lo jogar porque ele fica com receio de não performar bem. E também nunca assisto aos jogos dele, fico nervosa demais. Eu gravo e vejo depois. Fico com medo de ele falhar. No jogo contra o Flamengo eu fui fazer mercado até dar umas 18h40. Aqui ninguém sabe que sou a mãe dele. Acabou o jogo escutei um rapaz dizendo "olha lá, aquele Matheus é daqui (Teresina). Eu fiquei só ouvindo”.

A pedagoga espera, em breve, conhecer a capital paranaense e promete “quebrar o protocolo” na Arena da Baixada.

“O dia que eu for pra Curitiba já avisei o Matheus, não quero ficar em camarote, eu quero ficar na torcida, pra ele ir lá me abraçar. Ele diz que sou doida”, ri.

O maior sonho de Matheus hoje é dar uma casa própria para a mãe. Enquanto o desejo ainda não se realiza, o jogador vai trilhando o caminho no Athletico e dando orgulho à família Nascimento. E claro, sempre nas orações de dona Maria Socorro, mesmo que a mãe não veja os seus jogos ao vivo.

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